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Ando aqui há alguns dias decidido a retomar o blogue, mas tenho andado à espera do momento certo para marcar este regresso. É agora. Esta minha ausência já foi justificada em posts anteriores — durante uns meses tive de me concentrar em absoluto no lançamento do meu novo projeto editorial, a NiT, mas agora que a revista está online, e que as rotinas de trabalho se começam a instalar, sinto que estou novamente em condições de voltar ao blogue de forma permanente e consistente, com atualizações diárias, como acontecia até esta interrupção.

 

Durante esta ausência passaram-se muitas coisas sobre as quais gostaria de ter escrito, mas penso que a mais importante está ainda viva em todos, o recente ataque terrorista que matou vários jornalistas do semanário Charlie Hebdo.

Já ouvi dezenas de opiniões sobre este assunto, já li outras tantas e muitas vezes senti que este assunto se tornou, para algumas pessoas, numa guerra estúpida em que o que se discute é se eu sou mais Charlie que tu, se tu és mais Charlie que eu, se aquele tem ou não o direito de dizer que é Charlie, ou se aquele que diz que é Charlie tem legitimidade para o fazer. Esta discussão patética e umbiguista, dias depois de um atentado que chocou toda a gente, denota pequenez e, mais, uma pequenez de quem sente que o mundo gira à sua volta, sem a tal noção, lá está, de que é demasiado pequeno para seguir este caminho.

Este não é um ataque a ninguém em especial. Ninguém é maior e mais pequeno numa altura como estas, ninguém vale mais porque, um dia, teve a coragem de dizer isto ou fazer aquilo. O facto de uma pessoa ser corajosa não lhe dá o direito a achar que é mais Charlie do que o vizinho do lado, até porque o movimento Je Suis Charlie, para mim, não tem a ver com demonstrações públicas de coragem, tem a ver, sim, com solidariedade humana e com a defesa de um valor fundamental e que deve ser um pilar da nossa vida, a liberdade de expressão. 

A indignação sobre quem deveria ou não assumir-se como Charlie começou por partir de alguns humoristas. O Bruno Nogueira, o Rui Sinel de Cordes ou o João Quadros, por exemplo, foram alguns dos que defenderam, basicamente, que vivemos num país em que muita gente é cobarde mas que agora quer ser Charlie, como se se batesse pela liberdade de expressão. Ouvi o João Quadros, muito irritado, no programa "Irritações", da SIC Radical, apresentado pelo Boucherie Mendes, a defender isso mesmo, que as televisões não compram humor político, que os jornais não apostam em humor negro ou incómodo, e que agora todos querem ser Charlie.

Acho que existe uma confusão de conceitos na cabeça do João Quadros. Está a confundir a liberdade de expressão com decisões baseadas em regras de mercado. Por exemplo, eu posso ser dono de um jornal, adorar humor negro ou satírico, mas achar que o mesmo não cabe no meu jornal, porque não é do interesse dos meus leitores. Isso faz de mim um defensor da censura? Faz de mim uma pessoa que é contra a liberdade de expressão? Não. Eu posso ser totalmente a favor da existência de humor negro, totalmente a favor de que o João Quadros possa lançar a sua própria revista de humor satírico, totalmente a favor de que ele deve ser livre de fazer humor com qualquer situação, e posso bater-me por esse direito dele até à morte, mas também ele tem de respeitar a liberdade de quem decide de não querer comprar aquele humor para as suas publicações. São opções livres num mercado livre.

Depois, há outra coisa que é importante que se perceba. O humor satírico é um mercado de nicho, não é uma coisa popular. Se fosse, seria generalizado e uma aposta constante nos principais meios de comunicação social. O Charlie Hebdo, em França, não é propriamente um jornal de massas que venda milhões. Se o humor negro e satírico fosse, realmente, do interesse de toda a gente, aceite por toda a gente, divertido para toda a gente, estaria em todo o lado e a toda a hora. Não está. Só um grupo muito restrito de pessoas compra, em França, o Charlie Hebdo. Em Portugal, por exemplo, duvido que um semanário desses sobrevivesse mais do que três meses. E não sobreviveria, precisamente, porque não há mercado, porque as pessoas não querem assim tanto rir-se de piadas negras ou satíricas.

Os próprios humoristas têm obrigação de saber disso. O Rui Sinel de Cordes é insultado a toda a hora por causa das piadas que faz. O último espetáculo que ele fez chamava-se "Este Era para Ser com o Sassetti", uma piada à morte do pianista. Muito bem, ele deve ser livre de fazer estas coisas, é humor, agora, tenho a certeza que este tipo de humor não é bem aceite por muita gente, as pessoas não gostam, sentem-se incomodadas, não se riem, não querem ouvir. O mesmo se aplica a piadas sobre cancro, sobre a igreja ou sobre pedófilos. Devem existir, claro que sim, os humoristas devem ser livres de escrever sobre o que quiserem, claro que sim, não podem é impor esse tipo de humor a toda a gente, porque nem toda a gente quer esse tipo de humor. Agora, um diretor de programas que não compra um programa de humor ou um diretor de jornal que não compra um cartoon satírico por considerar que ele vai ofender mais os seus leitores do que fazê-los rir deve ser considerado um censor? Não. É alguém que é contra a liberdade de expressão? Não. Não tem o direito de, numa altura destas, se sentir Charlie? Tem.

Falta só referir que eu sou dos que acham piada ao humor negro, dos que se riem de tudo o que tenha graça, independentemente do que está a ser retratado na piada. Adoro humor politicamente incorreto, que brinca com os assuntos mais sérios. Gosto muito do trabalho do João Quadros, talvez o humorista português em atividade mais consistente, e que alimenta diariamente, há muitos anos, uma ótima crónica na TSF. Tenho pena que não existam mais publicações, canais e rádios a apostar neste tipo de humor, mas também já estive (e estou) do lado de quem decide, e muitas vezes temos de decidir contra os nossos interesses pessoais e a favor daqueles que achamos serem os interesses do nosso público. Isso não é censura, é bom senso.

charlie.jpg

 

 

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publicado às 09:11


14 comentários

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De homem sem blogue a 12.01.2015 às 10:07

Existem pessoas que acham que isto é algo da Imprensa. Mas foi um atentado contra o Homem e a sua liberdade. É a política do medo para os que pensam de forma diferente.

Esta quarta, o Charlie Hebdo terá um milhão de unidades nas bancas. Por norma, a tiragem é de trinta mil. Tendo em conta o país, é fácil de perceber que é uma publicação pequena. O que não significa que não tenha relevo.

Dizes quem em Portugal não sobrevivia muito tempo. Talvez. Mas quantas pessoas que gostam de colocar o dedo na ferida, com ou sem humor satírico, sobrevivem muito tempo? São sempre os alvos a abater. São sempre as pessoas que se querem calar. E os elos mais fracos porque, muitas vezes, quem deveria defender essas pessoas, tem medo de perder o seu trabalho.

O que aparenta ser um "simples" ataque a um jornal tem associado diversos temas que dão horas de conversa.

Bom regresso!
Abraço

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De alex a 12.01.2015 às 12:29

O ser humano é um bicho complicado. E o ser humano português deve ser dos mais complicados que habitam este planeta. Por exemplo: o ataque ao jornal francês aconteceu, dito de forma muito simples e básica, porque há gente para quem a liberdade de expressão não tem qualquer significado. Muito menos quando essa liberdade de expressão inclui criticas a temas que para essa gente são sagrados, como a religião. Ora todo o português se insurge contra isso - a liberdade de expressão é dos valores mais importantes e tem que ser salvaguardado. Mas depois um senhor de nome Gustavo Santos escreveu a sua opinião acerca do atentado e eis que os insultos e ofensas não se fizeram esperar. Porque isto de dizer: "olhe, desculpe, mas não concordo consigo" é para fraquinhos e expressar uma opinião de forma insultuosa é tão melhor! Enfim, liberdade de expressão é um tema complexo e não apenas um direito imprescindivel.
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De Anónimo a 12.01.2015 às 13:31

Seja bem aparecido... Tinha saudades do teu blog!!!
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De MS a 12.01.2015 às 14:13

Acho que qualquer pessoa tem o direito de dizer que também "sou Charlie" porque tal como disseste trata-se essencialmente de uma questão de solidariedade.

MS Blog (http://ms-blogue.blogspot.pt/)
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De A Pipoca Arrumadinha a 12.01.2015 às 16:09

A liberdade do humor necessita sempre de alguma dose de bom senso ou ponderação!
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De nice a 12.01.2015 às 19:18

Eu concordo quando dizes que o humor negro não vende e que há decisões que têm de ser tomadas, mas também é verdade que muitos desses humoristas são censurados quando o tema é mais sensível. Há muitos exemplos disso. Um dos mais recentes foi o jogo do South Park teve uma parte censurada (não vou dizer qual para não spoilar ninguém) na versão que veio para Portugal, por exemplo, o que me obrigou a encomendar pela net a versão completa.
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De M a 12.01.2015 às 23:09

desculpa a linguagem, mas: Finalmente caralho!! Tinha saudades dos teus textos
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De Anónimo a 22.01.2015 às 17:27

Que mal educado.
Não seria mais correto dizer: Bem vindo?
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De Filipa a 12.01.2015 às 23:25

Seja bem aparecido e regressa em grande com um assunto muito controverso, o humor negro!! Eu adoro e recomendo, só tenho pena que haja tão pouco investimento em Portugal talvez por não ser muito apreciado no nosso país.
Bom regresso e que seja desta que vai manter o blog atualizado.
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De Rui Dias a 13.01.2015 às 09:06

Pelo menos no artigo do Jornal de Negócios, o João Quadros incidiu em pessoas que se dizem "Charlie" mas que já instauraram processos a comediantes por coisas que disseram ou escreveram sobre eles. E esse parece ser um argumento válido: não são propriamente pessoas com legitimidade, quando nem para eles próprios são capazes de tolerar a tal liberdade de expressão. (E atenção que falamos de humor muito mais leve, menos agressivo.)
Contudo, e a ser verdade, o resto do seu raciocínio faz sentido; ainda por cima pode falar com total propriedade.
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De Alice a 28.01.2015 às 12:30

Mais uma vez estamos a falar de coisas diferentes. Existe liberdade de expressão e existe a possibilidade de uma pessoa se sentir ofendida e recorrer aos tribunais para ver o seu 'bom nome' recuperado. Duas formas legitimas de agir num estado democrático.

Depois existem pessoas que matam ou tentam matar quem disse alguma coisa que não gostam de ouvir e isso é completamente diferente.
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De Ana Maria a 13.01.2015 às 15:55

Muito bom.
É talvez dos textos de opinião sobre este assunto com que mais me identifico. Concordo com tudo, haja bom senso!

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