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31
Out13

Se há Desamor haverá Amor

por O Arrumadinho

Logo após ter terminado todo o processo de escrita, revisão e edição do livro "Desamor" comecei a pensar no outro lado do mundo das relações, nas pessoas que sentem que encontraram o amor de uma vida, a pessoa certa, e que, para isso viveram mil e uma peripécias, sofreram como cães, tiveram de conquistá-lo durante anos, mudá-lo, mas que, após toda essa luta, conseguiram ser felizes. E são essas histórias que eu quero saber.

 

É verdade. O "Desamor" de 2013 vai dar lugar ao "Amor" em 2014. A ideia será a mesma: um livro de contos com histórias reais vividas pelos leitores do blogue. E o método também será igual: vou pedir a todos os que tenham grandes histórias de amor que mas tentam contar por mail. Podem escrever o que quiserem, quanto quiserem, sem preocupações de estilo, de erros, de frases mais bonitas ou ideias mais arranjadas, podem anexar cartas, mails, fotos, tudo. Eu irei ler todas as histórias e escolher as que me parecerem mais emocionantes, mais recambolescas, mais originais, mas também as que representem melhor as várias gerações de leitores do blogue, ou seja, de gente que tem hoje 25 anos, 35 anos, 45 anos ou 55 anos, por exemplo. 

 

A maior crítica que me fizeram ao "Desamor" foi a de que o livro se lia demasiado depressa. Eu não quis ter mais de nove histórias porque entendi que o livro poderia perder dinâmica se fosse muito grande, e achei que teria muito mais impacto se fosse mais curto, com histórias todas elas fortes e marcantes, mas também bastante diferentes umas das outras. Agora, vou corrigir isso e escolher pelo menos 15 histórias, para que o livro tenha mais para ler, tentando que nunca se torne denso ou maçudo.

Tal como aconteceu com o "Desamor", a ideia não será a de ganhar prémios literários nem a de produzir prosa narrativa elaborada e cheia de rodriguinhos literários. "Amor" será um livro terra-a-terra, de leitura simples mas envolvente, com palavras cruas, verdadeiras e próximas de todos nós, porque é assim que eu gosto de escrever e porque é assim que eu acho que consigo envolver mais leitores.

 

Por isso, e para que este projecto esteja pronto lá para Maio de 2014, vou pedir a todos os que tenham grandes histórias de amor que as partilhem comigo através do e-mail oarrumadinho@gmail.com, colocando no subject a palavra AMOR. Eu prometo que irei ler todas com o máximo de atenção. Tal como aconteceu com o "Desamor", todos os nomes, locais e profissões serão alterados por forma a proteger a identidade das pessoas envolvidas.

Os textos que me forem enviados serão unicamente para eu perceber como foram os factos, já que, depois, a história será integralmente estruturada e escrita por mim, usando uma linguagem de conto ou narrativa que será mais ou menos uniforme em todos os capítulos, daí não haver necessidade de term de se preocupar com o estilo de escrita.

 

Deixo desde já o meu obrigado a todos. Estes livros são, sobretudo, uma homenagem a vocês, os que estão aí desse lado e que os tornam possíveis.

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publicado às 22:30

30
Out13

Desamor - O Segredo

por O Arrumadinho

 

Há sensivelmente um ano comecei a estruturar o que veio a ser o meu segundo livro, o Desamor, que está nas bancas desde Junho. Foi um projecto que me deu um prazer imenso, já que contou com a participação dos leitores, que me enviaram as suas histórias mais tristes, aventuras que lhes mudaram a vida ou a forma de entenderem as relações ou até mesmo o amor. 

A muita gente que me deu o livro para assinar, escrevi aquilo que realmente penso sobre o desamor. Não acho que deva ser visto como um fim, mas sim como uma lição, e como o primeiro passo para algo de bom que aí vem. Um fim nunca é o fim de tudo. E muitas vezes o fim de uma relação é apenas uma fase de maturação da nossa vida emocional e amorosa. É doloroso, atira-nos ao chão, mas é na capacidade que cada um tem de se levantar que está muito do prazer da vida.

 

Na altura do lançamento do livro, publiquei aqui um excerto de um capítulo. Era uma das nove histórias inspiradas em acontecimentos reais vividos pelos leitores do blogue. São aventuras fortes, algumas pesadas, quase todas marcantes. 

Agora, ofereço-vos um capítulo completo.

Se quiserem ler o resto, Desamor está em todas as livrarias.

 

O Segredo

 

Uma forte discussão com a minha mãe, com quem sempre tive uma relação difícil, levou-me a sair de casa aos 25 anos. Na altura, trabalhava em Setúbal, como lojista, e de vez em quando tinha de ir a encontros de revendedores para ajudar a minha patroa a fazer encomendas e a tratar de burocracias. 

Conheci o Sérgio num desses encontros. Ele era da zona de Lisboa, mas tinha sido colocado no Instituto Politécnico de Setúbal como professor-assistente. Era simpático, bonito, não aparentava ter mais de 30 anos, e senti logo uma química entre nós. Tinha ido acompanhar uma amiga, que era representante de uma marca de roupa, mas passou mais tempo a falar comigo do que a ajudá-la. Trocámos números de telefone e prometi-lhe um tour pela cidade, que ele desconhecia, por ter chegado há pouco tempo. Minutos depois de me ter ido embora, recebi uma mensagem dele.

— Só te esqueceste de uma coisa: dizer-me como te chamas.

Fez-me sorrir. Respondi-lhe que me chamava Adelaide, que tinha 25 anos, 1,68m, 52 quilos e que o meu cabelo preto era natural. De volta, recebi um sorriso.Logo nesse dia, trocámos vários SMS e combinámos um jantar.

Em vez de escolher um lugar bonito e charmoso, optei por levá-lo a um restaurante típico de Setúbal, barulhento, onde se come o melhor choco frito da cidade. Acho que ele admirou a ousadia e disse-me que aquele tipo de sítio tinha muito mais a ver com ele, já que era um homem simples, descontraído e informal. Gostei de saber.

Desde que vi Sérgio pela primeira vez que me senti atraída por ele, por isso, não durou muito até acabarmos na cama. Primeiro em minha casa, depois na dele. 

Ao fim de uma semana, assumimos o compromisso e tornámo-nos namorados. A relação corria bem e acabei por me mudar para casa dele, até porque financeiramente era mais vantajoso para os dois, já que podíamos dividir as despesas. De repente, no espaço de um mês, passei de solteira e sem namorada a uma mulher praticamente casada. Mas estava confortável e feliz com a mudança.

O Sérgio nunca tinha vivido com uma mulher e demonstrava sérias dificuldades em partilhar um espaço. Ficava muito nervoso quando não encontrava as coisas nos sítios onde as deixava, incomodava-se com o barulho normal de outra pessoa pela casa, o que me perturbava e, invariavelmente, levava a discussões. Numa delas, um pouco mais intensa, cheguei a dizer-lhe que se calhar nos tínhamos precipitado com a decisão de vivermos juntos. Esperava que do outro lado viesse uma mensagem conciliadora, um abraço de esperança, mas não, o Sérgio concordou com o que eu dissera, o que me deixou desiludida. Mas não desistimos. Ainda assim, e como seria de esperar, a relação esfriou, embora sentisse que continuava a gostar dele e a admirá-lo.

Um dia, o Sérgio perguntou-me se lhe poderia sugerir um restaurante engraçado para levar um colega, o António, que tinha tirado o curso com ele e iria mudar-se para Setúbal, para substituir uma professora que estava de baixa de maternidade. Como não conhecia ninguém das relações dele, já que os amigos eram todos de fora, pedi para ir jantar com eles. 

Quando o António chegou fiquei deslumbrada. Era lindo de morrer, alto, com uns olhos azuis enormes, barba por fazer, parecia um modelo. Depois, durante o almoço, revelou ser extremamente inteligente e com um sentido de humor incrível. Passámos o tempo a rir à conta das histórias que contava, que metiam quase sempre mulheres, claro. Na altura, pensei que deveria ter uma legião de fãs prontas para lhe saltar para cima. Bastava estar cinco minutos com ele para perceber porquê.

A partir desse dia, o António passou a fazer parte do nosso núcleo. Almoçávamos os três várias vezes por semana, ele ia jantar a nossa casa, fazíamos sessões de cinema em conjunto, saímos à noite, era quase como se fossemos três amigos a viver na mesma casa. Só lhe faltava dormir lá, porque de resto estava sempre connosco.

Quando o António não aparecia, tudo tinha menos graça, e parecia que eu e o Sérgio não encontrávamos assunto para conversar. Com o tempo, ele tornou-se o meu melhor amigo, a pessoa com quem passava mais tempo, com quem podia falar abertamente de tudo e que melhor parecia entender os meus problemas.

A grande prova disso chegou passado um ano, quando a minha prima, de quem era muito próxima, faleceu vítima de um tumor. Tinha 29 anos. Entrei numa fase depressiva, em que tinha imensos ataques de pânico e violentas crises de ansiedade. Tomava anti-depressivos que me hipnotizavam e me transformavam numa pessoa diferente, menos alegre, sombria, negativa e triste. Ao contrário do que pensei que pudesse acontecer, isso só me aproximou ainda mais do António, que esteve sempre pronto para me ouvir, para me puxar para cima, para me recuperar.

Um dia, depois de ter faltado ao emprego por não ter tido força emocional para sair da cama, o António entrou-me por casa (ele já tinha chave), arrancou-me dos lençóis, enfiou-me na banheira e obrigou-me a tomar um duche. Depois, agarrou em mim, meteu-me no carro e levou-me até um ponto muito especial para mim, na Serra da Arrábida, o lugar que um dia lhe mostrara, enquanto lhe fazia uma visita turística pelos locais mais bonitos da zona de Setúbal. Na altura, dissera-lhe que era aquele ponto era o meu lugar mágico, o sítio que me fazia mais feliz. Não sei se por estar demasiado fragilizada ou emocionalmente alterada, mas comecei a chorar agarrada a ele.

— Eu pensei que este local te fazia feliz, e não triste. Se é para chorares levo-te já de volta para a cama. Ao menos lá não me manchas a minha melhor camisa — brincou ele.

— Gosto muito de ti, António.

— Eu também gosto muito de ti.

Ficámos olhos nos olhos durante uns 10 segundos. Fui dominada por uma imensa vontade de o beijar, e tenho a certeza de que era também isso que lhe apetecia. Controlei-me. Abracei-o, apertei-o com força e senti os braços fortes e longos dele, que me enrolavam por completo e me puxavam contra ele. Ficámos assim durante alguns minutos. Não precisámos de mais palavras. Ficámos envolvidos pelo silêncio, que completava o abraço. Ambos sentimos que o que nos unia era demasiado forte. Foi a melhor sessão terapêutica que poderia ter. 

Quando ele me deixou em casa senti-me fisicamente muito debilitada, quase como se a presença dele fosse suficiente para me defender de qualquer doença. Comecei a sentir tonturas, dores no corpo, náuseas e espasmos. Liguei ao Sérgio, que estava na escola, mas ele não me atendeu. Tentei o António, que voltou de imediato para minha casa. Depois de vomitar tudo o que tinha e não tinha no estômago, de começar a arder em febre. Ele optou por me levar para o hospital. Entrei pelas urgência, puseram-me a soro e fizeram-me uma série de análises, para tentar perceber o problema. Passadas umas horas, fui levada para um gabinete.

— Quer que mande entrar o seu marido? — perguntou-me o médico, referindo-se ao António, que esperava na sala.

— Ele não é meu marido, é só um amigo, mas sim, pode pedir para ele entrar — respondi, a sorrir, e já mais bem-disposta.

O António entrou, deu-me um beijo na testa, sentou-se a meu lado e deu-me a mão.

— Bom, fizemos alguns testes para tentar perceber o que estava a originar esta indisposição repentina, com episódios de vómitos e tonturas e talvez não saiba mas está grávida de quatro semanas — disse o médico com um sorriso prolongado. — Muitos parabéns.

Fiquei estarrecida, sem reacção. Olhei para o António, que estava tão perplexo como eu. Abraçámo-nos. O médico deu-nos permissão para ficarmos no gabinete mais uns minutos e saiu. Só parecia estar à espera daquele momento de privacidade. Comecei a tremer e a chorar de forma descontrolada, enquanto apertava o António contra mim. Quando ao fim de algum tempo levantei a cabeça, percebi que também ele tinha os olhos em lágrimas.

— Eu não quero ter esta criança. Não quero. Não posso — disse-lhe, a soluçar.

Ele não me respondeu, limitou-se a chorar agarrado a mim.

— Não estou preparada, não é o que eu quero para a minha vida. Não pode ser. Não é o momento. Não quero que seja com o Sérgio. Ajuda-me, António.

— Não há nada que eu possa fazer. É uma decisão que vais ter de tomar com ele. Não quero nem posso influenciar-te em nada. Tens de agir com consciência. Há uma vida em jogo.

— Não há uma vida. Há quatro vidas. A da criança, a do Sérgio e a nossa. Eu estou a pensar na nossa.

— Vamos tentar que a nossa vida seja o mais feliz possível.

— É isso que eu quero.

Bateram à porta. Era o Sérgio, que tinha recebido uma mensagem escrita do António a dizer que tinha ido comigo ao hospital, e que estaríamos naquele gabinete. Quando espreitou lá para dentro ainda nos viu abraçados, e de olhos húmidos.

— Então, o que é que aconteceu? — perguntou-me o Sérgio, enquanto me passava a mão pelo cabelo.

— Comecei a ter umas tonturas, depois vomitei. Liguei-te, mas como não atendeste pedi ao António para me trazer ao hospital.

— Estava a dar aulas, desculpa. Tinha o telemóvel no silêncio — O Sérgio deu uma palmada no ombro do António, em jeito de agradecimento. — E já sabem o que é que tens?

Olhei para o António, que virou a cara para o chão.

— Não sabem se é algum vírus. Fiz umas análises, depois comunicam-me o resultado. Mas já me sinto melhor.

Não tive coragem de contar ao Sérgio. Eram demasiadas coisas a acontecer, demasiadas emoções para um dia só, e precisava de me deitar, pensar na vida, no que queria, antes de discutir a gravidez com ele. Em tempo já tínhamos falado na possibilidade de termos um filho, mas nunca decidimos começar a tentar. Eu tomava a pílula, mas o efeito era muitas vezes anulado pela enorme quantidade de comprimidos que tomava para combater as depressões e os ataques de pânico. Como as nossas relações sexuais eram pouco frequentes — uma vez por mês, duas no máximo — também nunca me passou pela cabeça que iria engravidar. 

Fomos para casa e mergulhei na cama. O Sérgio foi-me fazer umas torradas e levou-mas ao quarto. Ficou a olhar para mim durante algum tempo, como se estivesse a perceber que havia qualquer coisa que não lhe estava a contar. Olhei para ele e senti que não era justo nem honesto ele não saber.

— Estou grávida.

— O quê?

— De quatro semanas. Ainda é muito pouco tempo.

— Grávida? Mas… quando é que…

— Soube hoje no hospital.

— E não me contaste?

Ele sentou-se ao meu lado na cama e segurou-me a mão. 

— Estou um bocado em choque — disse-me ele, com um sorriso atrapalhado.

— Eu também.

— E agora?

— Acho que não devemos ter o bebé.

— Não? Como assim? Mas já pensaste sobre o assunto? De onde é que isso vem agora?

— Acho que não é a altura, que não estamos preparados, falta-nos muita coisa.

— O que é que nos falta? Pensei que querias muito ser mãe.

— E quero. Mas sinto que este não é o momento.

O Sérgio levantou-se e começou a andar de um lado para o outro no quarto, muito sério. Passou a mão pela cara, nervoso. Eu olhava para ele, enterrada debaixo dos cobertores e agarrada a uma almofada. 

— Quando é que vai ser o momento? Achas que um dia vamos dizer que temos dinheiro suficiente, estabilidade suficiente, uma casa suficientemente grande, apoio suficiente? Não. Isso nunca vai acontecer. Se vamos estar à espera de ter as condições perfeitas, então, nunca vamos ser pais. As vidas adaptam-se às circunstâncias. Se a vida nos está a dar esta possibilidade, então, acho que não a devemos negar. Temos de nos esforçar, de nos moldar a uma nova realidade. Temos uma casa, temos emprego, temos os teus pais por perto, os meus também não estão assim tão longe, temos algum dinheiro. Já viste a quantidade de gente que tem filhos e que não tem nem metade do que nós temos?

Apeteceu-me dizer-lhe tudo o que sentia, a verdadeira razão pela qual não queria ter um filho naquela altura. Não podia ser mãe quando não tinha a certeza de amar o homem que iria ser o pai dessa criança, quando vivia uma relação que criava mais dúvidas do que certezas, quando o meu primeiro instinto, logo que soube que estava grávida, foi o de querer muito que o pai tivesse sido outra pessoa que não o Sérgio. Mas não fui capaz.

— Nós conhecemo-nos há menos de dois anos, ainda não casámos, e eu gostava de seguir um caminho mais tradicional, deixar amadurecer a relação, casar, e daqui a algum tempo pensarmos em crianças, prepararmos a vinda de um filho, tudo planeado, pensado. Eu vou fazer 27 anos, tu tens 30, somos muito novos, não temos de nos precipitar.

Ele voltou a sentar-se ao meu lado e apertou-me a mão com força.

— Adelaide, eu não preciso de passar mais 10 anos ao teu lado para ter a certeza que te amo. E também não tenho de esperar sei lá quanto tempo para saber que quero que sejas a mãe dos meus filhos. Aconteceu, pronto. Ainda bem. Vamos ver o lado bom e bonito disso. Neste momento, já me sinto pai e já te vejo como mãe. Dentro de ti está o nosso filho. Não é um projecto, uma ideia, uma dúvida. É uma vida, gerada por nós. Não temos o direito de a destruir.

Não tive argumentos para contrariar o Sérgio. Ficou decidido, naquele dia, que iríamos ter a criança. Fechei-me na casa de banho e chorei durante uma hora. Senti que aquela decisão significava o fim do sonho de um dia poder lutar pelo António.

À noite, recebi uma mensagem dele no telemóvel.

— Como estás? Contaste-lhe?

Não tive coragem de lhe responder. Achei que ele merecia saber de outra forma. No dia seguinte, de manhã, perguntei-lhe se podia ir ter comigo a um parque infantil, que ficava perto de minha casa, para conversarmos. 

Apareceu à hora combinada. Apertou-me contra ele com força. Senti-me segura naquele abraço, mas não me consegui controlar. Comecei a chorar.

— Calma, Adelaide. Acalma-te, vá. Conta-me tudo. O que é que se passa?

— O Sérgio não quer que eu aborte. Vamos ter a criança. 

O António voltou a abraçar-me e não me lembro de termos voltado a trocar uma palavra. Chorámos os dois. O que sentira na véspera, a sensação de ver um sonho perder-se, era agora o que o António sentia. Decidimos que o melhor seria afastarmo-nos. A ausência física atenuaria a dor que ambos sentíamos.

Praticamente não nos vimos durante seis meses, tirando um ou outro encontro circunstancial, quase sempre porque o Sérgio desafiava o António para jantares, para ver jogos de futebol ou saídas à noite. Eu arranjava forma de me ausentar, de não estar presente, mas nem sempre era possível. Das poucas vezes que nos vimos, percebi que ele tentava ignorar a minha barriga, já muito evidente. Apesar de o António tentar ao máximo alhear-se da gravidez, achei que o devia escolher para padrinho da minha filha, a Leonor. Pouco antes de ela nascer, quis ter uma última conversa com ele, a sós. Voltámos a encontrar-nos no parque infantil.

— Obrigado por teres aceitado ser o padrinho da Leonor.

— Não havia razão para não aceitar. Vocês são os meus melhores amigos.

— Mas eu sabia que ia ser difícil para ti. Mas queria-te ligado à minha vida de alguma forma.

— Vou tentar ser o melhor padrinho possível.

— E achas que poderemos ser amigos, mesmo a sério, unidos e inseparáveis?

— Já te disse, és a minha melhor amiga.

Dei-lhe um abraço. Senti que as palavras dele não eram totalmente honestas, mas era o único caminho que nos restava. 

Na semana seguinte, estava eu a dias de ser mãe, o António apareceu para jantar em nossa casa. Vinha acompanhado por uma rapariga bonita, baixinha, bastante mais nova que ele — aparentava ter uns 21 ou 22 anos. Apresentou-a: chamava-se Laura e era namorada dele. Quando a vi pela primeira vez senti um ardor intenso no estômago, talvez imaginando logo que pudesse ser alguém com quem ele tinha uma relação, mas, não sei porquê, naqueles minutos, alimentei uma ténue esperança de que fosse uma prima, uma colega, a irmã, sei lá. Não. Era mesmo a namorada. 

Tentei ser simpática e cordial, mas não foi fácil. Sempre que ia à cozinha tinha vontade de chorar de raiva. Depois, na sala, disfarçava o melhor possível tentando parecer feliz por esta nova etapa na vida do António. Cheguei mesmo a dar-lhe os parabéns, com um sorriso que só eu sei o quão falso era. Na verdade, a vontade que tinha era de correr com aquela mulher de minha casa e chamar-lhe tudo. Ainda mais porque era bonita e elegante, tudo o que irrita uma mulher grávida de 39 semanas, com a auto-estima na lama, as hormonas tresloucadas, um humor de cão e níveis de tolerância muito próximos do zero.

A Leonor nasceu uma semana e meia depois. Foi o dia mais feliz da minha vida. Senti-me preenchida, realizada e tive a certeza que a decisão que eu e o Sérgio tomáramos fora a correcta. 

No dia seguinte, o António foi ver-nos à maternidade. Chegou com a Laura, mas ela recusou-se a entrar no quarto, nem sequer para ver a bebé. Achei aquilo esquisito.

— Passa-se alguma coisa com a Laura?

— Uma crise. Mas passa-lhe.

— Então? Porquê?

— Ciumeiras parvas.

— Ciúmes de quê?

— Não percebeu que fizesse questão de te vir ver à maternidade. Ela acha que é coisa unicamente para o marido e pais da mãe, não para amigos. Eu tentei explicar-lhe que não me sinto um amigo qualquer, que somos muito próximos, sou o padrinho da Leonor, e que há coisas que por muito que ela peça eu jamais farei. Como isto.

Abracei-o. Vi-o a acariciar a Leonor e, por muito cruel que possa parecer, naquele momento quis muito que ele tivesse sido o pai dela. Este sentimento foi ampliado pelo facto de nos últimos meses da gravidez o Sérgio ter começado a mostrar uma personalidade que eu desconhecia. Na fase em que mais precisava, e em que voltei a passar por crises de ansiedade e um período mais depressivo, ele afastou-se de mim, não me apoiou e nunca mostrou paciência para me ajudar em nada. Foi o início da minha grande desilusão. 

Os primeiros tempos com a Leonor em casa foram muito duros. As crises de ansiedade não passavam, a fase depressiva revelou-se mais intensa e tudo isto piorou porque não pude tomar a medicação apropriada, já que estava a amamentar, e tive receio de que isso pudesse ter implicações na qualidade do leite. 

O momento mais duro chegou quando a Leonor tinha três meses, e esteve relacionado com o António. Ele foi a nossa casa, acompanhado pela Laura, claro, e comunicou-nos que se iriam casar. O Sérgio fez uma festa, abraçou-os, começou logo a falar da cerimónia, do copo d’água, e eu fiquei para ali com um sorriso plástico, que tentava esconder o desgosto profundo que sentia. Apetecia-me partir coisas, bater no António e perguntar-lhe porque é que me estava a fazer uma coisa daquelas. Senti aquele anúncio, esta decisão do António, como uma traição, o ponto final em todos os meus sonhos. O nascimento da Leonor traçara o nosso destino, mas com um casamento o António queria dar-me um sinal: o nosso amor morrera mesmo, antes até de ter tido uma oportunidade. Apesar de tudo isto, sentia que continuava a amá-lo e sofria muito por ver que ele não sentia o mesmo por mim.

O António e a Laura casaram-se passados seis meses. Foi o dia mais triste da minha vida. A minha relação com o Sérgio estava pior do que nunca. Não havia proximidade, cumplicidade, química, paixão, nada. Da minha parte, também já não existia amor. Levava uma vida infeliz, frustrada, focada unicamente na minha filha. Engordei seis quilos, deixei de fazer praticamente tudo o que me dava prazer, tinha um marido ausente e desinteressado, um emprego onde não era valorizada e continuava a sofrer por ver o homem da minha vida feliz ao lado de outra mulher. 

A cerimónia foi um pesadelo, com toda a gente muito contente, a Laura sempre agarrada ao António, ele também cheio de sorrisos. Senti-me uma velha amarga, que só quer o mal dos outros, quando sei que não sou nada disso. Tive consciência da mulher em que me havia tornado, e sabia que era impotente para mudar o que quer que fosse.

Quando partiram o bolo, fui sentar-me sozinha à mesa. O Sérgio, que já estava alcoolizado, tinha ido para junto do grupo de amigos, e estavam para ali às gargalhadas a falar sei lá do quê. Apeteceu-me pegar no carro e voltar para casa, mas o António não me merecia essa falta de respeito. Depois, chegou o momento da abertura da pista e os noivos dançaram uma música animada. Preferi não ver. Levantei-me para ir para o jardim, apanhar ar. Quando ia a sair, e já com toda a gente a começar a dançar, senti tocarem-me no ombro. Virei-me. Era o António.

— A minha primeira dança tem de ser contigo.

Apeteceu-me beijá-lo, dar-lhe um estalo, dizer que sim e sorrir, dizer que não e virar-lhe costas. Não tive coragem de fazer nada. Baixei os olhos. Ele tocou-me no queixo, sorriu, pegou-me na mão. Deixei que me levasse por entre aquela gente toda. Apertou-me contra ele, como já fizera tantas vezes, e dançámos. Durante aqueles minutos, não pensei em nada. Senti-me a noiva, a mulher da vida dele, embalada pela música e por um sonho que sabia ser impossível, mas que naquela altura não me importava. De mãos dadas, senti que o que nos unia era eterno e não havia casamentos ou filhos que o anulassem.

À nossa volta, toda a gente dançava. O António foi-me encaminhando para junto de uma das janelas que davam acesso ao jardim, sempre embalados pela dança. Até que me soltou, puxou-me por uma mão e saiu da sala, arrastando-me com ele.

— António, onde é que vais? 

Ele entrou para dentro de uma pequena sala, cheia de cadeiras empilhadas, caixotes e mesas de plástico brancas enfiadas umas nas outras. Fechou a porta, trancou-a e empurrou-me contra ela. Ficámos frente a frente, com os lábios a poucos centímetros de se tocarem. 

— Porque é que não és tu que estás ali vestida de noiva? Porquê? — perguntou-me ele, emocionado.

O meu coração batia de forma descompassada. Estava dominada pela surpresa e pelo medo. E se alguém nos tivesse visto? O que é que eu diria ao Sérgio se ele nos visse sair dali? E ele à Laura?

— Responde-me!

— Era o que eu mais queria nada vida, António.

— Então porque é que me fizeste isto? Porque é que desististe de mim?

— Eu não desisti de ti. Tu é que nunca me quiseste, nunca acreditaste.

— Nunca te quis? Eu apaixonei-me por ti no dia em que te vi pela primeira vez, Adelaide. Eu amava-te como nunca amei alguém no dia em que me disseste que irias ter um filho do Sérgio. Isso, para mim, foi um sinal, o sinal de que havias desistido. 

— Então porque é que não me disseste isso? Porque é que escondeste o que sentias?

— Porque eu sou amigo do Sérgio. Não podia ser eu a causar a vossa separação. Se o querias deixar terias de o fazer por já não o amares, e não por haver outra pessoa. E o pior é que eu sei que tu não o amas. Mas quando decidiste ter um filho dele mostraste-me que estavas indisponível.

— Não estou, António. Não estava na altura, e não estou agora. Tu é que estás. Tu é que te casaste. E essa decisão, sim, muda tudo. 

— Eu casei-me porque tu não me deste a mão. 

— E amas a Laura?

— Não. 

— Então porque é que te casaste com ela?

— Para atenuar a dor que sentia.

— E atenuou?

— Não.

— E agora?

— Agora não sei.

Comecei a chorar descontroladamente. Saí daquela arrecadação suja e corri sem direcção, para longe dali.

O nosso tempo passou. Mas o amor perdura. 

Até um dia.

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publicado às 17:04

Tornou-se viral por estes dias um vídeo com alguns anos em que a pianista portuguesa Maria João Pires é apanhada de surpresa quando a orquestra que iria interpretar um concerto de Mozart começa a tocar outro totalmente diferente. Maria João Pires troca umas palavras com o maestro, fica visivelmente aflita, parece hesitante, mas quando chega a altura de entrar, ela fá-lo de forma brilhante, sem um único erro. 

No pequeno vídeo onde se pode ver esta incidente, o maestro Ricardo Chailly vai contando o que se passou e realça a forma fantástica como a pianista se saiu, tocando de cabeça e sem qualquer erro um concerto que não havia preparado.

 

Esta história foi recuperada por dois bloggers do jornal The Telegraph. Damian Thompson publicou o vídeo e falou da genialidade de Maria João Pires, mas logo de seguida o colega Stephen Hough, um claro entendido em música clássica, desmonta o que vemos no vídeo e afirma que o que estamos a ver não é uma estreia, mas sim um ensaio geral, e que o que a pianista portuguesa fez não é nada de extraordinário, já que ele fez uma pesquisa no Google e percebeu que Maria João Pires tocava frequentemente aquele concerto de Mozart e que, por isso, era natural que o soubesse de cor.

 

Ainda assim, é gratificante ver que lá por fora não se discute apenas a genialidade de Cristiano Ronaldo e a arrogância de José Mourinho.

 

Fica o vídeo.

 

 

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publicado às 11:41

28
Out13

Fim-de-semana a abrir

por O Arrumadinho

Este fim-de-semana foi dedicado ao exercício.

Começou sábado de manhã, com dois jogos para a Taça MediaCup, uma competição de órgãos de comunicação social. Depois de termos vencido o campeonato nacional da MediaCup em Junho não conseguimos repetir o êxito na Taça. Fomos eliminados com duas derrotas em dois jogos: 3-2 contra o Diário Económico e 2-0 contra o Expresso/Visão. Depois da bola, cheguei a casa, tomei banho, almoçámos, equipámo-nos e fomos para a 1ª Corrida TSF Runners, que partiu do Terreiro do Paço.

 

A 1ª CORRIDA TSF RUNNERS

 

A minha mulher foi fazer a prova de 5 km e eu fui para os 10. Na verdade, a de 5 km tinha apenas 4,5 e a de 10 tinha 10,6, o que faz toda a diferença para quem controla os minutos e corre para bater recordes. E era isso que eu queria: fazer a minha melhor marca do ano aos 10 km (era de 43'34'', uma semana antes, na Night Run). Problemas: tinha uma dor forte no joelho, depois de ter levado uma pancada de manhã, no futebol, as pernas estavam um pouco pesadas e sentia o almoço às voltas no estômago. Começou aí o jogo psicológico, com o corpo a enviar mensagens ao cérebro para que este processasse a ideia de que não valia a pena tentar correr muito depressa porque com tantas condicionantes jamais bateria o recorde. Ainda assim, arrisquei.

Comecei a prova bastante rápido, com um primeiro quilómetro a 3'43'', e depois estabilizei numa média de 4'10'' até ao nono quilómetro. Consegui manter sempre a cadência, sem quebras, mas não fiz o cálculo perfeito, já que comecei a perder o gás a partir dos 9,4 km, a 1200 metros da meta. Olhei para o relógio e percebi que se desse tudo conseguiria baixar dos 41' à passagem pelos 10 km, ou seja, tirar quase dois minutos e meio ao melhor resultado que tinha conseguido este ano (o meu recorde é de 39'07''). Tentei esticar, mas as pernas não obedeceram. Tive uma sensação de vómito (tinha mesmo o almoço aos saltos no estômago) e percebi que ia ali muito perto do meu limite. O batimento cardíaco estava nos 180. Ainda assim, insisti, fiz aquele último esforço e lá abri a passada. Passei aos 10 km com 41'10'' (queria fazer entre 41' e 43') e depois abrandei o ritmo e fui devagar até à meta. Terminei com 43'16'', o que me valeu um 76.º lugar na geral e 14.º na minha categoria.

 

Depois da prova comecei a sentir uma pontada forte no joelho e achei que se calhar seria difícil ir à Corrida do Montepio, no dia seguinte de manhã (17 horas depois). Cheguei a casa, besuntei o joelho com Voltaren, fiz uns alongamentos e descansei. À noite, mais Voltaren. Domingo de manhã acordei e embora sentisse a pontada no joelho não tinha dores. Resolvi ir correr.

 

 Antes da partida, com a minha mulher e um grupo de amigos, entre eles o Tiago e o Bruno, da Correr Lisboa

 

A chegar à meta, no Terreiro do Paço, já em ritmo de passeio 

 

A 1ª CORRIDA DO MONTEPIO

 

Cheguei a Belém e encontrei um mar de gente. Eram 7 mil inscritos. Havia famílias inteiras a fazer aulas de fitness, música, animação, insufláveis, uma loucura. Consegui posicionar-me mais ou menos à frente, para ver se não andava aos ziguezagues durante muito tempo. A corrida começou muito rápida, e tentei igualar o ritmo da véspera. Mas ao fim de um quilómetro percebi imediatamente que não conseguiria. As pernas estavam mais presas, ainda cansadas da véspera, e mais de metade do percurso iria ser feita com vento médio contra, o que influencia o rendimento. Optei por tentar apenas o melhor possível, já que não iria conseguir igualar os 41'10'' da véspera. Senti-me relativamente bem até aos 5 km, altura em que tive uma quebra de energia. Baixei um pouco a cadência da corrida, mas, felizmente, uns metros mais à frente, o percurso inverteu-se e passámos a correr a favor do vento. Isso motivou-me e fez-me acelerar. E fui sempre a ganhar segundos até final. Os três últimos quilómetros foram os meus mais rápidos (à excepção do primeiro) e consegui terminar com um tempo decente: 42'16'', o que me valeria um lugar nos 200 primeiros (digo valeria porque o meu nome não apareceu nos resultados — vou ter de ver o que se passou).

Esta primeira Corrida do Montepio, que teve como madrinha a Rosa Mota, serviu para apoiar a Cruz Vermelha Portuguesa, que recebeu 37 mil euros, verba resultante das inscrições. O percurso é muito bom, plano, rápido e bonito. Espero, sinceramente, que seja a primeira de muitas.

Parabéns ao Montepio e à HMS Sports.

 

A chegar à meta, em Belém, completamente exausto
(um beijinho à minha leitora Mariana Dias, que teve a amabilidade de tirar esta foto e enviar-me)

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publicado às 09:30

Na passada sexta-feira, a produção das "Manhãs" da CMTV pediu-me para levar o Manolo a estúdio, para que eu falasse um pouco sobre o meu cão enquanto divulgava os resultados finais dos vencedores do passatempo "Eu Tenho o Bicho Mais Querido do Universo". Ele já deveria ter ido ao programa duas semanas antes, mas devido a um imprevisto de última hora não o pude levar. Mas desta vez lá foi ele à televisão. E, tal como eu calculava, desestabilizou aquilo tudo. Passou o tempo todo a ladrar e a correr atrás do Paulo, da produção, que tinha estado a brincar com ele e a provocá-lo antes de entrarmos para o estúdio. Quando o levei, e já com a edição no ar, o Manolo avistou o Paulo e quis ir continuar a brincadeira. Ladrou, ladrou, ladrou, obrigou o Nuno Graciano a ir buscá-lo, largou pelo ao colo da Maya, ao meu colo, e acabou por ser retirado do estúdio por mau comportamento.

No meio disto tudo, quase não tivemos tempo para falar do tema do Oculto, em que a Maya explica a diferença entre videntes e astrólogos. 

No programa, houve ainda uma surpresa: na semana anterior, o Nuno Graciano admitiu que não conhecia os pregos do Sea Me, que foram escolhidos pela revista TENTAÇÕES, da SÁBADO, como os melhores de Lisboa. Pois bem, eu convidei o Rui Gaspar, dono do Sea Me, a levar-lhe um prego em directo. 

 

Podem ver tudo no vídeo.

 

 

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publicado às 23:07

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