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27
Dez13

Ser ateu

por O Arrumadinho

Ao meu post sobre o Natal tive alguns comentários de pessoas intrigadas pelo facto de eu:

 

1. Ser ateu e celebrar o Natal

2. Ser ateu e ter baptizado o meu filho

3. Ser ateu e ter casado pela igreja.

 

Vou, então, responder a essas dúvidas.

 

1. Quer parecer-me que, há muitos anos, o Natal deixou de ser uma época unicamente religiosa. É, sobretudo, uma época festiva, de reunião, de união, uma altura em que muitas famílias se juntam, em que toda a gente parece mais calma, mais solidária, mais tolerante. É uma época de paz. E isso transparece, percebe-se no local de trabalho, nas compras, no quiosque, na rua, em todo o lado.

É também uma época das crianças, e quando as há em grande número é tudo muito mais alegre e emocionante, o vê-las vibrar com as histórias do Pai Natal, com o suspense dos presentes, a brincarem e a correrem pela casa. O Natal é, para mim, tudo isso. 

Depois, há esse aspecto, para mim menor, ou insignificante, que é o facto de ser uma época nascida de um evento religioso. E a isso ligo muito pouco, ou mesmo nada, precisamente por ser ateu. Agora, não é por isso que a época do Natal me é indiferente, nem é isso que impede que, nesta altura, goste de estar com a família em paz.

Eu não "festejo" o Natal. Eu gosto do espírito do Natal, que são coisas diferentes.

O facto de ser ateu não significa, também, que tenha ódio à igreja ou às questões religiosas. Não tenho. Pelo contrário. Respeito todos os católicos, os protestantes, os muçulmanos, budistas, indus, judeus, todos os que queiram acreditar no Deus ou nos deuses que bem entenderem. A religião é um assunto demasiado individual e intimista para eu me meter. Cada um sabe de si, e eu estou confortável com a opção de toda a gente.

 

2. É verdade que eu sou ateu, mas também é verdade que sou casado com uma católica. Logo, se a minha mulher é católica, porque é que deveria ser impedida de celebrar o seu casamento na igreja, só porque o marido é ateu? Seria errado. É por isso que existe um casamento religioso em disparidade de cultos, precisamente para este tipo de situações. E foi isso que fizemos: casámos em disparidade de cultos. Ela, como católica, eu, como ateu. Ela teve de repetir aquelas coisas todas da Bíblia e responder às perguntas do padre, eu não, fui dispensado de tudo isso. O casamento foi, para ela, uma celebração perante Deus e a Igreja, e, para mim, uma simples celebração. Ficámos os dois felizes com a escolha e isso é que interessa. 

 

3. As respostas de cima praticamente que respondem a esta terceira questão. Eu sou ateu, mas a minha mulher é católica. E ela quis apresentar o seu filho a Deus e baptizá-lo perante a Igreja. E eu não tenho nada a opor a isso. Respeito o desejo dela, e não acho que o miúdo se vá tornar pior pessoa por ser baptizado. Quando for maiorzinho irá perceber, por ele, as suas próprias convicções religiosas. Há por aí milhares de pessoas baptizadas que são ateus, da mesma forma que há muita gente católica que só se baptizou por opção própria já em criança, adolescente ou adulto.

 

Para mais esclarecimentos sobre a minha relação com a igreja, podem ler um texto que escrevi aqui há mais de dois anos. É só vir aqui.

 

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publicado às 12:50

24
Dez13

Feliz Natal

por O Arrumadinho

Hoje é um dia importante para muita gente, nem que seja porque estão em família, uma coisa cada vez mais rara nos dias de hoje, em que passamos o tempo a correr de um lado para o outro e quase nunca conseguimos parar, juntarmo-nos aos que mais amamos e desfrutarmos da companhia deles durante umas horas. Por norma, o Natal consegue esse milagre.

 

Embora seja ateu, sempre achei esta época especial e única, sobretudo pela paz que transmite a muita gente, pelos sentimentos mais generalizados de amor, solidariedade, tolerância, união e perdão. Sinto que o mundo é um bocadinho melhor quando chega o Natal. Só que o Natal não dura sempre, e o mais comum é, passada a época, voltar tudo ao mesmo. E é esse o meu mais profundo desejo de Natal deste ano: que prolonguemos estes sentimentos pelo resto do ano.

 

Este ano, pedi a toda a gente para não me darem presentes. Felizmente, não preciso verdadeiramente de nada, sou muito feliz com o que tenho na minha vida, e não há nada que possa receber que me deixe mais realizado ou completo. Ou melhor, há, precisamente o que pedi antes: mais amor, menos ódios, mais paz, menos guerras, mais compreensão, menos julgamentos. Eu tentarei fazer a minha parte.

 

A todos os que me lêem, aos que me seguem há anos, aos leitores mais recentes, aos que gostam e não gostam de mim, desejo um Natal muito feliz e em paz junto das pessoas mais importante das vossas vidas. 

Tudo de bom.

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publicado às 09:55

22
Dez13

Estreia esta semana o filme "A Vida Secreta de Walter Mitty", que poderia apenas ser mais um entre as centenas que passam pelas nossas salas todos os anos. A história é a de alguém que vai atrás dos seus sonhos, mas isso é o menos importante. Prefiro falar da forma como a produtora, a 20th Century Fox, promoveu o filme.

 

Atenta ao fenómeno da viralidade e à forma como os vídeos na internet chegam a milhões de pessoas, a 20th Century Fox perguntou a um dos mais irreverentes realizadores e produtores de vídeos online, Casey Neistat, se queria fazer um vídeo para promover este novo filme. Enviaram-lhe um mail e deram-lhe uma ideia geral do que pretendiam: "Queremos uma promoção que aborde o conceito "vive os teus sonhos". Queremos que seja um vídeo que motive, inspire e funcione como o catalisador para que as pessoas façam algo que nunca fizeram".

Casey recebeu esta proposta cinco dias após a passagem do tufão Hayan pelas Filipinas, que causou milhares de mortos e deixou centenas de milhares de pessoas na miséria.

Casey respondeu instintivamente: "É este o meu conceito: dêem-me o dinheiro, eu vou às Filipinas e gasto cada cêntimo a ajudar as pessoas que precisam".

A 20th Century Fox aceitou e pagou 25 mil dólares a Casey Neistat para ele ir para as Filipinas ajudar as pessoas. 

E este foi o vídeo que ele fez sobre os dias que passou a comprar comida para as vítimas do tufão.

O vídeo já tem mais de 1,2 milhões de visualizações. O vídeo do trailer oficial do filme, no canal do YouTube da 20th Century Fox, tem 1,9 milhões. É a prova de que, cada vez mais, as pessoas procuram o que é diferente, criativo e humano.

Só por isto, irei ao cinema ver o filme. E deixo-vos aqui o vídeo de Casey Neistat (só como curiosidade, foi graças a um vídeo dele que a Apple teve de alterar as baterias dos primeiros iPods, que morriam ao fim de 18 meses. Ele denunciou isto num vídeo, teve um grande impacto mediático, e Steve Jobs teve de mexer no produto — embora nunca tenha admitido que foi por causa dele, claro).

 

 

 

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publicado às 11:11

20
Dez13

O Matumbo vai às compras

por O Arrumadinho

Este vídeo anda a circular nas redes sociais como sendo anedótico, uma comédia.

Eu só o acho profundamente triste, e o reflexo da sociedade em que vivemos.

 

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publicado às 15:44

20
Dez13

Sinceramente, acho que nem o Governo acreditava que a decisão ontem anunciada pelo Tribunal Constitucional fosse diferente. O chumbo da convergência de pensões estava mais do que anunciado, e não me lembro de ter ouvido um constitucionalista a assumir alguma dúvida sobre esta matéria. Era óbvio que a convergência seria chumbada, era óbvio que o que o Governo queria com esta medida era um balão de oxigénio orçamental e não uma reestruturação do sistema de pensões da mesma forma que me parece óbvio que a solução que vai ser encontrada não pode ser a de uma simples subida de impostos, porque isso seria trágico para a confiança dos portugueses, que começaram a ver os primeiros sinais de retoma.

 

Há muitas questões a discutir sobre esta decisão.

 

E agora, qual é a solução?

A mais importante é a de saber qual vai ser a solução encontrada pelo Governo para recuperar estes quase 400 milhões de euros que não vai conseguir poupar, como tinha previsto, com a convergência de pensões. Fala-se numa subida do IVA, mas, sinceramente, acho que isso seria mais um tiro no pé. Os recentes números apresentados sobre o desemprego e o crescimento económico devolveram alguma esperança às pessoas, mostraram-lhe que o fim parece, finalmente, mais perto, que a luz sempre existe ao fundo do túnel, ainda que ele seja muito longo. São sinais pequenos, ainda pouco mais do que simbólicos, mas dão algum ânimo a quem já passou por anos e anos de cortes e mais cortes. Uma nova subida de impostos poderá matar, uma vez mais, essa esperança, o que poderá reverter de forma dramática, estes números positivos. Os empresários terão mais medo de contratar, as pessoas terão mais medo de comprar, as receitas fiscais irão cair e o desemprego subir.

 

Mas qual é a solução? Para mim, é simples: nenhuma. Nenhuma. Não se faz nada. Negoceia-se um défice para 2014 ligeiramente superior aos 4 por cento previstos. Se esta medida representa 0,25 do défice, então, em vez de 4 por cento negoceia-se 4,25. Acho que isso será muito menos grave do que um novo aumento de impostos.

 

A legitimidade do Tribunal Constitucional

Outra questão que se tem debatido muitas vezes é a legitimidade de o TC vetar leis contrárias ao interesse nacional, e que põem em causa a subsistência do Estado. Nesta matéria, acho que o Governo seguiu sempre uma estratégia errada. Desde o primeiro chumbo (e já vamos no quarto). O Tribunal Constitucional é, e deve ser sempre, independente de qualquer poder político, ainda que os juízes sejam indicados por partidos políticos. Os juízes constitucionais não fazem leis, verificam se as propostas de lei ou decisões políticas estão de acordo com a Constituição. Claro que há sempre matéria subjectiva, e que pode ser interpretada de maneira diferente, mas as decisões dos juízes representam um ponto final na discussão. Eles são os únicos com legitimidade para decidir se a constituição é, ou não, cumprida. E quando uma decisão deste colectivo é unânime, então, parece-me absurdo dizer que é o TC que está contra o Governo ou que é uma força de bloqueio. 

 

Por mais que discorde de algumas medidas tomadas pelo TC (e já discordei de um dos vetos), fico muito feliz por saber que há um órgão superior que não permite que um qualquer Governo tome medidas que violam a lei maior. É um sinal de maturidade democrática. E ainda bem que assim é. Dizia hoje uma ouvinte da TSF no fórum que o TC não serve para nada, e que devia ser a AR. Isto parece-me um disparate tão grande que nem deveria merecer discussão. O Tribunal Constitucional é, ainda, o valor maior que nos garante a democracia.

 

Para mim, a estratégia do Governo de denegrir o TC tem dois objectivos: por um lado, justificar incumprimentos nas discussões com a Troika ("Estão a ver? A culpa é dos sacanas do TC"), e por outro passar a ideia, aos portugueses, de que a culpa da subida dos impostos é do TC, que não permitiu que fossem implementadas outro tipo de medidas. E isto pegou junto de muita gente.

 

Quem são os conselheiros de Passos

E agora a questão mais simples de tudo isto: afinal, quem são os conselheiros constitucionais do governo? Quem é que avaliza as propostas orçamentais que suscitam dúvidas constitucionais? Quem é que são os constitucionalistas que dão pareceres ao primeiro-ministro e que o levam a acreditar que estas coisas vão passar no TC? Após quatro chumbos não estará na hora de mexer nesta equipa e mandar embora esses senhores manifestamente incompetentes?

 

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publicado às 12:41

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