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17
Jun13

A greve dos professores

por O Arrumadinho
Estava hoje a ouvir o fórum da TSF sobre a greve dos professores e não consegui deixar de soltar alguns sorrisos a muitos dos argumentos apresentados pelos que defendem que o dia de hoje, de exames fundamentais para muitos alunos, é o mais adequado para esta "jornada de luta".

Por ser um assunto demasiado sensível, e com razões de parte a parte, é preciso analisar bem o problema.
Em primeiro lugar, acho muito bem que todas as classes profissionais se manifestem através da greve, o que é, aliás, um direito constitucional. Como também já aqui escrevi numa outra ocasião, também acho muito bem que quem entenda, em consciência, não fazer greve, seja porque motivos for, deve ter esse direito sem ser, por isso, diabolizado por colegas, insultado ou mesmo agredido por essa coisa tão pouco democrática chamada piquete de greve.

Não nutro particular simpatia por líderes sindicais. E por uma razão: são, quase sempre, ligados à CGTP, afecta ao PCP, e têm como profissão dificultar a vida a quem lhes dá trabalho, com uma defesa cega dos direitos dos trabalhadores, esquecendo, sempre, os seus deveres. Nunca vi um dirigente sindical insurgir-se contra um trabalhador incompetente, que não produz, que é trafulha. E também os há, e não são poucos. Ainda assim, caso haja um processo disciplinar a esse trabalhador, uma coisa é certa: ele contará com a defesa dos tais dirigentes sindicais, solidários com ele, e nunca com quem lhe paga o salário e não recebe, em troca, um trabalho competente ou eficiente.

Um desses dirigentes sindicais de que não gosto é Mário Nogueira, do sindicato dos professores. Mário Nogueira ganha como professor, mas não dá uma aula desde o início dos anos 80. Leva quase 30 anos como sindicalista profissional, contra quatro ou cinco como professor. Não lhe reconheço, por isso, moral para liderar protestos que têm, muitas vezes, um lado político e não tanto corporativo.

Venho de uma família de professores. Cresci num ambiente de escolas, com fichas de avaliação aos montes pela sala, com alunos a entrarem e a saírem de minha casa, onde tinham explicações. A minha mãe e o meu padrasto deram aulas durante muitos anos, andaram a ser colocados aqui e ali durante muito tempo, e, com isso, nunca tiveram a estabilidade que pretendiam. Também corrigiam testes, preparavam aulas, tudo como os professores fazem hoje. E, também eles, protestavam contra as condições de trabalho na altura, a falta de estabilidade, o tempo que perdiam em transportes.

Hoje, ouvia na TSF o marido de uma professora a queixar-se de tudo isto. Dizia ele que a mulher ficava "todos os dias" a "corrigir testes" ou "a preparar aulas "até às onze ou à meia-noite". Depois, não tinha estabilidade e era mal paga. Ou seja, em 30 anos, pouco ou nada mudou. Quer dizer, há coisas que mudaram: há muito mais professores e muito menos alunos. Ou seja, é normal que haja muito mais professores desempregados.

Eu não compro esta ideia de que os professores trabalham "todos os dias" quase "até à meia-noite" a preparar aulas e a corrigir testes. Eu já fui aluno, e havia testes de três em três meses. Muitos professores levavam duas e três semanas para os corrigirem, mas outros levavam um ou dois dias. Ou seja, a cada três meses, havia quinze dias, no máximo, de trabalho mais intenso. Também não estou bem a ver que um professor tenha de ficar até tarde, todos os dias, a preparar aulas. Os professores têm entre umas 12 e 20 horas lectivas por semana, ou seja, resta-lhes outras 15 ou 20, dentro do horário de trabalho, para fazer isso. Que, em casa, precisem de mais uma ou duas horas (que até aceito), tudo bem, mas isso não obriga a ficar a trabalhar até à meia-noite quase todos os dias.

Quando escolhi ser jornalista, já sabia que se trabalhasse num jornal diário a minha vida seria um inferno, com fechos tardios, poucos fins-de-semana e uma necessidade de alerta constante, já que uma notícia pode afectar-me toda a rotina familiar. Ao longo dos quase 20 anos de carreira que tenho, passei mais de metade deles a trabalhar em diários, a sair às 23h ou 24h, a trabalhar 12 e 14 dias seguidos, muitas vezes 12, 13, 14 horas por dia, e a ganhar relativamente mal para aquilo que trabalhava. Mas eu já sabia que a minha profissão era assim, da mesma forma que os professores sabem que se querem exercer têm de corrigir testes e preparar aulas. Perderam direitos, segurança, garantias, regalias, certinho, mas quem é que não perdeu? Quem é que está, hoje, melhor do que há quatro ou cinco anos? Quem é que ganha mais? Quem é que está mais seguro? Quase ninguém. A vida mudou, a conjuntura mudou, e mudou tudo para pior, em todos os sectores, por isso, diabolizar este ministro, culpá-lo de todos os males da profissão, para mim, vale perto de zero.

Desde os anos 80 para cá não me lembro de um único ministro da Educação que, aos olhos dos dirigentes sindicais, tivesse sido bom. Todos, sem excepção, estiveram ali para lixar a vida aos professores e dar cabo do sistema de ensino. Isto leva-nos à história do Pedro e do Lobo. Tanto dizem mal, que, às tantas, já ninguém sabe bem o que é verdade ou não. Com isso, esvai-se a credibilidade dos sindicatos e, por arrasto, dos professores.

Como disse no início, não sou contra os professores, sou por eles, venho deles, cresci no meio deles. Mas acho que, mesmo em luta, é preciso bom-senso e espírito de missão. Aderir a uma greve num dia de exames revela pouco bom-senso e muito egoísmo. Ao contrário do que já ouvi dizer, este dia não faz levantar a voz dos professores, divide a sociedade, fragiliza-os perante os pais dos alunos que estudaram e, hoje, não puderam fazer o exame.

A luta mais eficaz é que é feita com cabeça, com a nossa própria cabeça, e não a que é pensada pela cabeça dos outros, mais ainda quando os outros são profissionais da luta, e não do ensino.

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publicado às 17:39


309 comentários

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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:47

Todos temos direito à opinião, e a tua, acertada aqui ou ali, não corresponde à realidade ou desafios atuais. Não mesmo. FIca-se até tarde, sim, quase todos os dias sim. Falaste muito sem saber, e para nos representar precisamos um político, sim.

Por isso não voltarei a ler-te. Sou eu a exercer a minha liberdade.
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De Maria a 08.12.2013 às 00:26

Nem acredito que ainda haja pessoas a terem estas ideias preconcebidas e arcaicas sobre o trabalho dos professores. Testes de 3 em 3 meses? 12 a 20 horas de aulas? Ui, que bom seria. Só mostra desconhecimento total dos atuais horários dos professores e das atividades que têm que cumprir. Desconhece igualmente que um grande número de professores dá aulas a cursos profissionais, a CEf's e afins ,para os quais não existem manuais e que são os malandros dos professores que DIARIAMENTE têm de preparar o seu próprio material. Muito mais poderia acrescentar, mas este senhor não merece a minha atenção.
Estou farta de comentadores de bancada. Falem, por favor, apenas do que sabem.
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De Caio Enobarbo a 31.12.2013 às 23:23

Os nossos alunos precisam de bons professores a ensinar, sou totalmente a favor das reformas deste Governo.
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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:47

"Aderir a uma greve num dia de exames revela pouco bom-senso e muito egoísmo."

Com esta frase expressaste muito bem aquilo que penso.
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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:48

1 - Se a greve estava marcada, porque é que o Governo não alterou a data dos exames logo?
2- a greve foi feita para ser um inconveniente, ou não tinha impacto. Senão havia greve de transportes aos fins-de-semana e não durante os dias de semana. Eu, que preciso de transportes públicos para me deslocar, não vou poder ir trabalhar dia 27. É chato? É sim senhor. Mas já que anda tudo mal, anda tudo mal para todos. Coitados dos estudantes, coitados de todos.
3- Infelizmente os professores trabalham MUITO mais do que 40 horas por semana, isso posso garantir. Têm condições péssimas (por exemplo turmas enormes), salários muito baixos. Acho muito bem que façam greve. Se é um inconveniente para os alunos? Como disse de início, o Governo que mudasse logo a data.
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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:49

Outra vez esta letrica Arrumadinho?????
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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:52

A opinião com mais bom-senso que tenho visto/lido, parabéns!
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De Ana a 17.06.2013 às 17:53

O pior é que a vida de professor não é só preparar aulas e corrigir testes. Há reuniões de avaliação, reuniões de agrupamento, reuniões de pais, reuniões de escolha de materiais, entre outras. Há ainda as aulas de apoio e as aulas de substituição. As horas e horas a preencher papeladas e a ler legislação. De fora, é muito fácil criticar o Professor.
Os professores não se queixam do trabalho que fazem, mas sim da forma como são tratadas, tanto pelo Ministério como pela sociedade. Ser professor não é só dar aulas, é muito mais que isso. Contudo, como indica, há maus e bons profissionais em todo o lado.
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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:57

Testes de 3 em 3 meses? A sério, está muito mal informado. A realidade do ensino não é essa. Num período fazem-se no mínimo 2 testes, 3 ou 4 questões aula, trabalhos de pesquisa, relatórios... enfim... você para ganhar dinheiro precisa de um blog... e é com estes textos que consegue vender livros... Enfim... Triste!
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De Maria a 08.12.2013 às 00:27

Subscrevo.
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De Pedro Gonçalo a 19.04.2014 às 21:59

Sem dúvida!!!!!
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De Daniela a 17.06.2013 às 17:58

Obrigada Arrumadinho, por pores os pontos nos i's, finalmente.
Eu sou aluna, e concordo completamente com o que disse.
É preciso bom senso e sensatez, acima de tudo.
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De Rute a 17.06.2013 às 17:58

Os professores que lêem este blog vão matar-te lol mas eu concordo integralmente!!!!
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De Anónimo a 17.06.2013 às 17:59

E graças a tudo isto eu não pude fazer exame de Português -.- Isso sim, é a verdadeira injustiça!):
Sara Matos

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