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18
Dez13

O video das advogadas

por O Arrumadinho

Há dias, numa conferência de bloggers em que participei, dizia o Rodrigo Saraiva do blogue Piar que todos os dias havia nas redes sociais um saco de pancada. Não sei se foi exactamente essa a expressão que usou, mas a ideia era essa, a de alguém que, seja porque razão for, se torna viral e alvo de chacota colectiva. Às vezes por razões obviamente parvas, mas outras, apenas, porque toda a gente resolveu bater naquela pessoa em determinado dia. E depois foram todos atrás.

 

O alvo mais recente são as advogadas da sociedade de Maria do Rosário Mattos, que participaram num vídeo de apresentação do escritório. A primeira vez que ouvi falar disto, há uns dias, foi numa publicação qualquer de um amigo de Facebook que dava a entender que aquilo se tratava quase de uma promoção a uma casa de alterne. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Na imagem estática que ilustrava o post dele, podia ver apenas cinco mulheres, algumas bonitas e elegantes, com um ar feliz e americanizado, mas ao mesmo tempo profissional. Era uma foto a preto e branco e a primeira coisa que me veio à cabeça foi um cartaz da série Allie McBeal. Não pensei em prostitutas, não pensei em sensualidade barata, pensei em mulheres bem resolvidas e competentes, pensei num cenário mais americano do que português. Achei que, se calhar, o vídeo, sim, seria esse passo na direcção da falta de vergonha. E então fui ver.

Vi-o uma vez, vi outra, prestei atenção aos planos, ao texto, às advogadas, e, no final, não entendi o motivo da chacota e das insinuações. Menos ainda entendo o inquérito disciplinar aberto pela Ordem dos Advogados ao escritório. É que, segundo o presidente do conselho distrital de Lisboa, Vasco Marques Correia, existem no vídeo violações de duas regras: publicidade e... decoro. É isso mesmo, decoro.

 

Mas vamos por partes.

Não sou advogado, não conheço o estatuto da Ordem, e, por isso, não me posso pronunciar a fundo sobre a questão da publicidade. Mas, pelo que li, o que está em causa é o artigo 89.º, que proibe a "menção à qualidade do escritório", a "promessa ou indução da produção de resultados" e a "colocação de conteúdos persuasivos, ideológicos, de auto-engrandecimento e de comparação". Analisando a mensagem do vídeo, não encontro nenhuma violação, mas, como disse, se calhar sou eu que não estou a ver bem a coisa.

Mas passemos à parte do decoro, que é a que eu acho mais divertida. 

 

Quando ouço falar em decoro lembro-me imediatamente dos meus avós, bisavós, que são pessoas do tempo em que se falava de decoro quando se estava a falar de mulheres com saias ligeiramente acima do joelho. E, quer parecer-me, é isso que está em causa neste vídeo. Devo ter algum problema de visão, ou o meu computador deve estar a censurar as imagens verdadeiras, só pode, porque o que eu vejo neste vídeo não é indecoroso, não é sequer provocante, sexual, sensual. Há ali mulheres bonitas, sim, é verdade, mas as advogadas não podem ser bonitas? Vejo ali mulheres que vestem roupas femininas, saias, vestidos, aquilo com que se sentem confortáveis, e uma vez mais pergunto: as advogadas não podem ser elegantes e femininas? Não podem vestir roupas de mulher? Isso agora é falta de decoro?

 

Vamos tentar inverter a situação e transformar este vídeo num vídeo masculino, em que cinco homens bonitos, um deles tipo Richard Gere, outros quatro mais novos, trintões, elegantes, bem vestidos, fazem as mesmas coisas, apanham transportes públicos, andam pela rua, enquanto passa exactamente a mesma mensagem em off. O que é que se iria dizer? Aposto que o vídeo seria apenas comentado pelas mulheres em jeito de piada e nada mais. Seria uma graçola entre elas e a coisa passava. Mas o problema é que estão ali mulheres. E algumas bonitas. E elegantes. E com um ar feliz e de bem com a vida e com a profissão. E isso chateia muita gente, os infelizes, os velhos do Restelo, as pessoas que continuam a achar que a forma, o embrulho, é muito mais importante do que o conteúdo. Aquelas mulheres podem ser advogadas brilhantes, mas já estão a ser tratadas como umas oferecidas pelas redes sociais e como umas criminosas pela Ordem dos Advogados. E isso, sim, é um crime, nos dias que correm.

 

Já estive em julgamentos com advogados mal vestidos, a cheirar a álcool, incompetentes, estúpidos, mas a esses não me parece que tenha acontecido nada. Mas estas advogadas que, repito, até podem ser tecnicamente excelentes, estão tramadas. E apenas porque cometeram dois delitos: são bonitas e não tiveram problemas em mostrá-lo.

 

Por momentos, sinto-me nos anos 30 do século XX, mas toda a gente continua muito mais entretida a insinuar que estas raparigas são umas prostitutas do Direito.

 

Quem não viu o vídeo pode vê-lo aqui.

 

 

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publicado às 16:41


54 comentários

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De Vera a 18.12.2013 às 17:27

Ohhhhh meus senhores, tenham juízo nessa cabeca! Estamos no sec. XXI. Gostei do video!
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De Andreia J. a 18.12.2013 às 17:27

Eu não sei com que óculos é que essas pessoas, de quem te referes, andaram a ver este vídeo mas a mim a mensagem que me transmitiu foi: não se metam com estas senhoras que elas fazem picadinho de quem lhes fizer frente em tribunal. Só.
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De joao castro a 18.12.2013 às 17:28

Curioso como a Ordem dos Advogados nunca disse a nada, muito menos que houve falta de "decoro", quando o antigo Bastonário ia à televisão, às "Tardes da Júlia" e programas afins e falava e comentava todo o género de assuntos como se fosse um taxista.
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De Diana Cunha a 18.12.2013 às 17:36

A violação das regras deontológicas no caso em questão não está apenas relacionada com o vídeo em si mas com todo o conteúdo e descrição do próprio site. A começar pela identificação dos clientes. De facto, este tipo de publicidade não é permitida pelo Estatuto, pois que, a meu ver, não se trata de uma publicidade objetiva... Há aqui, sem dúvida, uma angariação ilícita de clientes... Se para os restantes advogados não é permitido este tipo de publicidade, então é natural que para este escritório também não o seja. Quanto ao decoro também penso que não esteja sequer relacionado com o tamanho das saias, nem sequer com a forma como se vestem mas, mais uma vez, pelo conteúdo total do site. No fundo, o que se trata aqui é da defesa da dignidade da profissão que percebo que seja difícil de entender para quem não seja advogado. Mas, no fundo, o que quero dizer é que a questão deontológica vai muito além do tamanho das saias, do sexo feminino ou se são bonitas ou feias.

Votos de bom trabalho.
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De Anónimo a 18.12.2013 às 18:17

Eu ia comentar, mas depois li o comentário desta Colega e já nada tenho a acrescentar.
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De Anónimo a 19.12.2013 às 11:00

Nem mais. De facto, para quem não conhece o Estatuto, é difícil compreender. O que me faz ficar curiosa sobre o que levará as pessoas a comentar, de forma tão assertiva, um assunto que não conhecem.
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De Anónimo a 18.12.2013 às 17:38

Caro Arrumadinho,

Sou advogada e, de facto, não vejo aqui nenhuma falta de "decoro". Já no que tange à violação do disposto no artigo 89º do Estatuto da Ordem dos Advogados isso sim, parece-me claro. Durante o video é, por diversas vezes, referida/mencionada a qualidade do escritório (o que é um acto ilícito segundo a alínea c) do n.º 4 do referido artigo) e também existe ali a promessa ou indução da produção de resultados, o que também está expressamente proibido na alínea e) do n.º 4 do mesmo artigo.

A violação deste preceito constitui infracção disciplinar (artigo 110º do Estatuto da Ordem dos Advogados) e, por isso, parece-me razoável que se abra um inquérito com vista a apurar a licitude ou ilicitude deste video.

Mais uma vez, afirmo que não acho que a situação configure uma publicidade a uma casa de alterne e, por isso, não me parece que haja falta de decoro ou ofensa à dignidade da profissão.

Quanto à publicidade, os escritórios de Advogados obedecem a regras deontológicas especificas que temos de respeitar, sempre se entendeu que a dignidade da Classe e a sua função ético-social impunha um certo decoro, pois o advogado deve tornar-se conhecido e ser procurado pela sua competência e probidade e não pelo engodo em campanhas publicitárias.
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De johnny bravo a 18.12.2013 às 18:19

Concordo com o seu comentário.
Estou do "outro lado" da bancada e não posso deixar um elogio à forma como abordou esta questão, sobretudo pelas últimas palavras.
É isto que falta, rigor na análise das coisas.
Nada contra alguns dos comentários, mas há um estatuto legal dos advogados. E que deve ser respeitado pelos próprios.
Não estamos a falar de clínicas de estética, nem de oficinas.
Estamos a falar de advogado e como é óbvio o advogado deve justamente ser conhecido e procurado pela sua competência, técnica, pois claro, e não pela competência da agência de publicidade que contratou.

Agora, de volta ao trabalho.
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De Anónimo a 19.12.2013 às 12:51

Ao citar António Arnaut ficava-lhe bem usar aspas, no mínimo ;)
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De Laissez-Faire a 18.12.2013 às 17:42

Acabei de falar do mesmo assunto no meu estaminé, não de maneira tão elaborada e pomposa e sem conhecimento dessas tais leis que, supostamente, as advogadas violam. Também não acho a ordinarice de que toda a gente fala...plamordeus!
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De johnny bravo a 18.12.2013 às 18:22

acontece que comentar este assunto exige alguns conhecimentos...não és obrigada a ter esses conhecimentos, mas pelo menos devias informar-te antes.
muito em resumo:
o advogado não pode fazer publicidade da forma que é feita aqui neste video. ponto final.
o advogado tem um estatuto legal e que deve respeitar.
não tem a ver com o tamanho de saias. nem com o facto de serem meninas.
tem a ver com o facto de um advogado não ser igual a uma clínica de estética ou oficina de automóveis.
o advogado deve ser procurado pela sua competência, técnica, como é óbvio, e não pela competência da empresa publicitária que contratou.
não sou eu que o digo, é o estatuto legal.
e pronto, só isso.

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De Ana a 18.12.2013 às 17:43

Quanto às questões legais não faço ideia e quanto ao decoro, não vejo que haja qualquer falta dele.

Mas um escritório que faz este tipo de vídeo não quer ser conhecido pela sua qualidade profissional, certo? Não as vemos a trabalhar, a investigar, a estudar, a defender clientes em tribunal, nada... Quando procuro um(a) advogado(a) não me interessa ver como se desloca na cidade ou no parque ou com que destreza caminha sobre saltos agulha. A nível profissional podem ser as melhores do mundo, mas evidentemente não quiseram ir por essa via no anúncio.

Eu não acho mal nenhum, aposto que vão ter imensos clientes à porta :) a qualidade profissional mostram nessa altura!
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De Anónimo a 18.12.2013 às 18:45

Ahahahah adorei o seu comentário :)
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De MartaM a 18.12.2013 às 19:14

Estou completamente de acordo consigo, Ana. Embora não veja nenhuma falta de decoro no vídeo, não me parece que as imagens escolhidas apelem à partida ao profissionalismo da equipa em questão.
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De Anónimo a 19.12.2013 às 10:06

E no fim, se repararem, a menina do fundo, pisca-nos o olho....
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De Joana Marques a 18.12.2013 às 17:47

Boutique Lover ou Lawyer? Epá...soa estranho.
Aposto que uma advogada com um excelente cv mas com um olho torto nunca seria admitida naquele escritório. É estranho elas fazerem-se valer TANTO da aparência. Todo o video para mim é estranho.
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De Joana a 19.12.2013 às 14:47

CLAP CLAP CLAP
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De homem sem blogue a 18.12.2013 às 18:38

Ordinarice, zero. Não vejo nada. Vejo um conjunto de mulheres que apostaram na elegância para se promover. É aquela máxima de que os olhos também comem. Se fosse um vídeo aborrecido, ninguém o via até ao fim. Agora, isto é uma coisa. O que a ordem dos advogados permite, é algo completamente diferente.

Não sou advogado. Mas noto no vídeo uma certa publicidade. Do estilo, somos as maiores, contratem-nos que ninguém nos vence. Enquanto cliente, nada tenho contra este tipo de publicidade. Mas, lá está, depende do que a ordem aceita e pelo que tenho lido, nesse domínio, elas estão a infringir regras.

Além do vídeo, fui ver o site. Mais uma vez, existe uma clara publicidade a cada uma das advogadas. Algo que parece não ser permitido.

O que eu sei é que se não lhes acontecer nada na Ordem, o vídeo é um caso de sucesso pois a publicidade está bem conseguida. Meteu várias pessoas a falarem delas. Umas bem, outras mal, outras sem opinião mas todas sabem de que vídeo se trata.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De MM a 18.12.2013 às 18:39

O vídeo não está de acordo com o Estatuto. Não está. Estas senhoras advogadas esticaram-se ao americanizar a profissão e têm que levar um puxãozinho de orelhas. Daí a dizermos que são prostitutas...é o povinho no seu melhor (no máximo, parece-me um anúncio a um champô caro, depois de me parecer, naturalmente, deontologicamente inaceitável - porque o é. Se concordamos ou não com o Estatuto, isso são outros 500).
A Ordem tem que intervir, também me parece que sim. Mas também não vi nenhum puxão de orelhas ao senhor bastonário, o rei das infracções disciplinares, a começar pelos "programinhas da manhã". E também não vi alguém incomodar-se com uma advogada estagiária na Casa dos Segredos.

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