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A propósito dos últimos textos que tenho escrito sobre as noites mal dormidas do Mateus, tem-se gerado alguma discussão entre comentadores na página de Facebook do blogue. Invariavelmente, aparecem as teorias de gente que acha que sabe tudo e que as suas ideias são as mais válidas e passíveis de serem aplicadas aos filhos dos outros. Isto é comum quando se fala de crianças, seja qual for o tema. Há as fanáticas da amamentação, do parto natural, do colo a toda a hora, do dormir na cama dos pais, e depois há as anti isto tudo, que defendem exatamente o contrário. O mais divertido — sim, porque chega a ser divertido — é que dos dois lados se grita como se fosse dono da razão, como se houvesse razão nisto de educar crianças. Não há. Para mim, não há.

 

Sempre defendi que ninguém melhor do que os pais sabe como educar os seus filhos, primeiro porque os filhos são seus, depois porque só os pais os conhecem como ninguém, só os pais conseguem perceber as diferenças nos choros, as razões das birras, os amuos, as manhas, os sorrisos, os olhares, a postura de desafio, o medo, a vergonha.

 

Quando o Mateus ficou doente pela primeira vez, há perto de um mês, percebi isso no primeiro dia. Ele estava simplesmente diferente. Aparentemente, não havia nada de muito anormal, mas eu notei qualquer coisa. Estava menos agitado, mais carente, tinha qualquer coisa no olhar que me fez perceber que ele não estava bem. Daí para a frente foi piorando de dia para dia. Também nestes casos, nas doenças, há quem tenha soluções milagrosas, tratamentos infalíveis, receitas perfeitas não só para curar os putos como para impedir que eles estejam doentes. Eu tenho uma opinião e postura diferente. Não sou super protetor, não acho que devamos proteger os miúdos de tudo e mais alguma coisa, fechá-los em redomas, impedi-los de rebolar no chão, meter as mãos na boca, brincar na rua, esfolar os joelhos. E também conheço pediatras que defendem a mesma coisa, por isso não é uma opinião isolada e fundamentada em nada. Acho que os putos têm de se fazer homens desde pequenos, ganhar defesas, crescer sozinhos, dar cabeçadas na parede, cair ao chão, sentir tristeza, frustração, medo, sempre sob o olhar vigilante dos pais. Para mim, essa é a palavra-chave: vigilância. E ser vigilante é diferente de ser super protetor, e também é diferente de ser irresponsável.

 

Claro que há mil e uma pessoas que defendem o contrário, que me quererão apresentar as suas técnicas infalíveis, que me julgarão, como se elas gostassem mais do meu filho do que eu, como se elas quisessem mais do que eu o melhor para o meu filho e como se elas conhecessem melhor o meu filho do que eu. Eu sou o primeiro a querer o melhor para ele e a fazer aquilo que acho que é o melhor para ele. Se o modelo que escolhi foi esse é porque entendo que isso é o melhor para o meu filho, e não porque sou irresponsável, despreocupado ou ignorante.

 

A discussão na página de Facebook tinha a ver com o método de adormecer os filhos. Nos primeiros meses de vida, sofremos muito com o Mateus. As noites eram um terror, e chegámos mesmo a ter o acompanhamento de uma amiga nossa, a Constança Cordeiro Ferreira, do Centro do Bebé. Ela foi a nossa casa, ensinou-nos muitas coisas, e acho admirável a paz e confiança que ela transmite. Houve dias em que o Mateus dormiu melhor, outros em que dormiu pior, mas isso também é normal com bebés de meses. Ainda assim, fomos continuando a ler sobre o assunto, a experimentar outros métodos, e a procurar aquele que poderia funcionar melhor com o nosso bebé. Até que houve um que resultou. Em vez de darmos colo ao Mateus de cada vez que ele chorava, passámos a ficar apenas no quarto ao lado dele e a acalmá-lo com a voz até ele adormecer. Depois, progressivamente, fomos ficando cada vez menos minutos no quarto. Nos primeiros dias ele chorava, nós passávamos por lá, espreitávamos e conversávamos com ele, sempre sem lhe pegar. Ele acalmava-se. Até que ao fim de uma semana, uma semana e pouco, começou não só a ficar sozinho quando o deitávamos, ainda acordado, como passou a dormir a noite inteira. Dez, doze horas seguidas. Sem choros, sem desconfortos, sem acordar uma única vez. Para mim, resultar é isto. Não criámos um bebé infeliz por ele ter chorado meia dúzia de vezes, conseguimos que ele tivesse sonos profundos e demorados, sem interrupções, todas as noites. Acordava sempre bem-disposto, alegre, cheio de energia e isso, para nós, era o mais importante.

 

Agora, há quem considere este método uma coisa horrível, cruel, uma tortura. Tudo bem, cada um pensa o que quiser. O que não aceito é que se julgue os outros, que se faça interpretações maldosas de uma decisão consciente de pais que só querem o melhor para o filho. Cada um sabe de si e dos seus e faz o que entende ser melhor. Não há teorias mundiais infalíveis, por isso, se estão felizes com o que fazem em casa, ótimo. Se todos pensarem assim e fizerem a mesma coisa, sem atirar pedras ao vizinho seremos todos muito mais felizes.

 

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publicado às 15:19


13 comentários

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De Filipa Santos a 07.01.2016 às 17:26

Concordo plenamente Ricardo. Cada um sabe de si e como educar os seus. Acho que nos dias de hoje há uma superproteção com os putos, não podem tocar em nada, não podem sujar as mãos, não podem mexer na terra, andar no chão...eu comi cocó de galinha, estou aqui fina e fui tão feliz! :)
Beijinho
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De Miguel a 07.01.2016 às 17:40

Oh Ricardo!

Sou o pai da Matilde, uma menina de 2 anos (estava com a Mãe - eu ainda não tinha terminado) que conheceu no final da Maratona do Porto...

Se há coisa que aprendi desde cedo foi a de fugir desses fundamentalistas. Aliás sempre que a conversa é sobre crianças e educação, Deus me livre é só sabichões!

Aprendi que o melhor é ignorar, abanar com a cabeça e fingir que está tudo bem... entra por um lado e sai por outro! Nem vale a pena contrariar essa gente.

Cada um sabe como cuidar dos seus filhos e o Ricardo saberá (aliás já é o segundo) certamente.

Ignore é o melhor! Falando pelas imagens e vídeos vê-se que o Mateus é sem dúvida uma criança feliz!

Só para ver a parvoíce dessa gente, já fui gozado porque a minha filha com 26 meses ainda não come gomas, chocolates, batatas fritas e toda uma panóplia de porcarias... porque simplesmente nunca lhe demos! Somos uns pais horríveis!!! :)
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De Inês a 07.01.2016 às 17:48

Chega a ser traumatizante ler e ouvir tudo o que dizem sobre os NOSSOS filhos. Uns dizem uma coisa e outros dizem outra. O truque está em adaptar às situações. Ninguém conhece tão bem um filho como os pais.
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De Hélder Oliveira a 07.01.2016 às 17:58

Concordo plenamente contigo quando dizes que ninguém melhor que os próprios pais sabem o que é melhor para os seus filhos e qual a melhor forma de os educar.
Há tantos psicólogos que defendem tantas teorias que se formos a ver nem sabemos qual a melhor atitude.

www.pensamentoseepalavras.blogspot.pt
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De Carla Marques a 07.01.2016 às 19:26

Sou daquelas pessoas que não usa esse método para adormecer. Embalei a minha filha ao colo enquanto pude, às vezes deixo-a dormir na minha cama e eu ou o pai ficamos na cama dela até adormecer. Tive parto normal e amamentei enquanto ela quis. Se acho que sou uma mãe melhor por isso? Obviamente que não. Estas foram as nossas decisões para a nossa filha, uma criança única e incomparável. Com outras pessoas e outras crianças outras coisas resultarão. Ninguém é dono da verdade e talvez a educação para a tolerância da diferença e o afeto sejam os únicos pontos que vale a pena termos todos em comum.
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De Paula a 07.01.2016 às 21:12

Se há uma coisa que muitas pessoas não entendem é wue as crianças são todas diferentes. E o que resulta com o meu pode não resultar com o seu. Tem toda a razão quando diz que cada pai sabe o que é melhor para o seu filho.
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De fatima melo a 07.01.2016 às 23:42

Parabens Ricardo, dos melhos textos que tenho lido pela internet desde sempre..... é muito bom vermos as coisas da maneira como as vê, porque eu tambem as vejo :)
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De Só uma mãe a 08.01.2016 às 09:32

O argumento do "resulta" é que acho fraquinho...há muita coisa que resulta o que não significa que seja certo...há que olhar os meios e não apenas os fins mas é a minha humilde opinião. Pq p Mateus deixa de chorar? Pq acalma sozinho ou pq desiste de pedir ajuda?fizeram um estudo com crianças que eram dedicadas a chorar. Ao fim de uns dias de fato não choravam mais mas os níveis de cortisol continuavam altíssimos...como diria o outro "vale a pena pensar nisso"...
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De Alexis a 08.01.2016 às 22:49

Chamada teoria da treta....
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De Sofia V. a 10.01.2016 às 00:11

Exacto. Adormecem "dopadas" com as hormonas resultantes de stress. Not good. Para mim também deu que pensar.
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De Joana a 08.01.2016 às 10:20

Bom dia.
Cheguei a este Blog muito por causa de ter conhecimento de uma paixão comum - a corrida. Leio o blog de forma assídua e muitas vezes até nem tenho o mesmo ponto de vista, mas reconheço que defende sempre a sua perspetiva de uma forma muito efusiva e acima de tudo muito clara e respeitando sempre o outro lado.
Nunca comentei.
Hoje não resiste, uma vez que também eu sou mãe de duas meninas de 8 e 4 anos e muitas vezes sou criticada e até hostilizada quando de forma espontânea partilho a forma com sou "pouco flexível" na hora de deitar as minhas filhas.
O ritual é sempre o mesmo, depois de xixi e de lavar os dentes, passamos à história (outra paixão que tenho é a leitura e tenho sempre vontade que elas sejam contagiadas por este meio vício da leitura), depois beijinho do pai e da mãe às duas e até amanhã. Este ritual acontece todos os dia por voltas das 8h45, tentando que às 9h já estejamos, pai e mãe, fora do quarto.
Com a mais velha foi muito difícil no inicio quando aos 6 meses passou para o seu quarto. Chegámos a deita-la e ela começava logo a chorar, dávamos Xuxa fazíamos miminho e saíamos do quarto. Ela voltava a chorar. Nós deixávamos chorar um pouco e voltávamos a entrar dar Xuxa, miminho e a sair. Fazíamos à vez as idas ao quarto e posso garantir que entrávamos no quarto muitas, muitas vezes. Este período durou umas semanas, mas assim que se tornou rotina nunca mais ouve choros para dormir. É muito dorminhoca, ainda hoje com 8 anos se puder dorme 12 horas por noite, independentemente da hora a que se deita. Nem mesmo o nascimento da irmã e a ida da irmã para o seu quarto em bebé a fez mudar.
Com a mais nova foi completamente diferente. Desde muito bebé que não gostava de colo, até para mamar, parecia que o colo tinha picos. Dormir era sinónimo de dormir na sua cama e não em mais lado algum. Muito bom na hora de dormir que era só deitar e dar um miminho, mais desagradável quando estávamos fora de casa.
Depois, ao contrário da irmã que não teve grandes alterações no seu comportamento na hora de ir dormir, por volta dos 2 anos e pouco começou a ficar deitada mas sempre a chamar. Alguns minutos depois de sairmos do quarto chamava ora o pai ora a mãe. Quando lhe questionávamos o que queria, às vezes dizia nada outras era só uma festinha e outras só um beijinho. Nos primeiros tempos íamos sempre, mas depois começamos a pensar que ela nos estava a manipular e nós a deitar por terra tudo o que sempre defendemos. Começamos a não ir e o choro e as birras começaram. Foram tempos difíceis até percebermos que o problema era a falta de uma luz de presença que nunca tinha sido necessária para a irmã e da qual nunca nos tínhamos lembrado. Assim que lhe começámos a deixar uma luz acesa tudo mudou. No entanto, de vez em quando ainda faz uma "fitas" e tenta a sua sorte, mas nós não damos espaço para que se "estique" muito.
Fica o meu testemunho que me parece bem esclarecedor de que todas as crianças são diferentes e que mesmo filhas dos meus pais e educadas com os mesmos valores e critérios podem ter reações distintas perante a mesma situação.
Não interessa o método aplicado, se é mais ou menos liberal.
As crianças são muito do que lhes damos e passamos mas têm personalidade própria e muito cedo qual quer pai e mãe minimamente atento perceberá isso.
Boas corridas e tudo de bom para si.
Joana.
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De Cátia Reis a 08.01.2016 às 11:11

Sou mãe de um menino de 2 anos, e partilho da mesma opinião, de que quem sabe o que é melhor para os filhos são os pais. O mundo está cheio de diversas opiniões e teorias sobre o que se deve ou não fazer no que diz respeito a educar as crianças, mas cada um sabe de si, porque cada pessoa é diferente e ninguém nos pode julgar por isso.

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