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O Dia da Corrida — o maior sofrimento da minha vida

Chegou o dia da prova, 2 de Novembro. Acordei às 4h da manhã para começar com todo o ritual que os maratonistas conhecem: equipar, besuntar os pés com creme anti-bolhas, colocar pensos nos mamilos (por causa das assaduras), escolher a roupa mais adequada... Alto! Vamos parar aqui.

Não sei muito bem o que me passou pela cabeça quando achei que devia ir para a zona da partida vestido da seguinte forma: calções, meias de compressão, uma camisola de corrida de manga comprida e um casaco de papel, daqueles ao estilo dos que o Walter White e o Jessie usavam quando faziam metanfetaminas. Comprei o casaco na véspera, por 10 dólares, e a ideia era deitá-lo fora quando começasse a correr. Tinha ainda um gorro e umas luvas descartáveis. A temperatura lá fora era de -2 ou -3 graus. Mesmo assim, achei que aquilo era suficiente. Estúpido, mas já lá vamos. Adiante.

MARATONA VILA3.jpg

 

 

A corrida começava em Staten Island, junto à ponte que liga este borough (ou bairro) a Brooklin. Como a ponte fechava às seis da manhã, o autocarro que nos transportava tinha de a passar antes dessa hora. Por isso, recolheu-nos no hotel às 5h e deixou-nos junto à partida às 5h30. Assim que pus um pé fora do autocarro percebi que ia passar um mau bocado. Afinal, estavam uns -10 graus e um vento cortante, forte, gelado. Um minuto depois já estava literalmente a bater o dente. Olhei para o relógio e percebi que a coisa ia ser dura: faltavam quatro horas para começar a corrida. Fónix, quatro horas. Eu não vou aguentar aqui quatro horas com este frio, pensei. Tive então esperança de que pudesse haver, mais à frente, um qualquer local de abrigo. Comecei a andar e, à minha volta, toda a gente estava bem agasalhada, com robes de dormir, mantas, pijamas, calças e blusões, polares, tudo. Só eu, literalmente só eu, é que estava ali de calções e com um casaquinho de papel que aquecia tanto como uma blusa de cetim. Cheguei ao local central da partida, um campo aberto onde estavam milhares e milhares de pessoas. Não havia um lugar para nos sentarmos, um lugar de abrigo, nada, só mesmo um campo aberto com duas ou três barraquinhas da Dunkin' Donuts a servir café e bagels simples. Fui para a fila, tremer de frio, totalmente gelado, na esperança de que um cafezinho me trouxesse algum calor.

MARATONA VILA1.jpg

Dez minutos depois, lá consegui o meu café. Enchi o copo (daqueles de papel) até cima só para poder aquecer as mãos. Agarrei o copo dos dois lados com as luvas só que as mãos tremiam tanto que acabei por entornar café pelas mãos. Passou um minuto: o café já estava frio. Resolvi ir dar uma volta por todo o recinto para ver se havia algum sítio um pouco menos gelado. Dei a volta completa ao espaço e nada. Olhei para o relógio: 6h30. Tinha passado uma hora. Já começava a nascer o dia. Faltavam 3h10 para a minha partida. Três horas e 10 minutos. Como é que ia aguentar aquilo? Não sabia.

Resolvi voltar à fila do café. Ao menos ali estava no meio de pessoas, e não sentia tanto o vento. Desta vez enchi o copo só até meio, para não voltar a entornar tudo. Resultou. Saí dali e fui até aos bagels. Tirei dois. Senti-me num passeio, ao lado de quatro amigas americanas (vestidas com casacões e com mantas nos joelhos) e, como quem não quer a coisa, fui-me chegando a elas, nem que fosse para sentir algum calor humano. Consegui ali um pequeno contacto perna com perna que me soube melhor que sexo. Elas repararam na forma como eu tremia enquanto tentava ratar os baguels e meteram conversa.

— Oh, meu Deus, como é que aguentas este frio só com isso vestido?

— Parece-me evidente que não aguento.

— Coitado...

— É.

Em vez de se porem com merdas bem que podiam era oferecer-me uma manta, pensei.

— De que cidade és?

— De Lisboa. É longe.

— Lisboa? Em que estado?

— Lisboa não é nos Estados Unidos, é em Portugal, na Europa.

— Sim, sim, Portugal... Boa. Que giro.

— É, é uma cidade muito bonita. E quente.

— Mas tu vieste só assim? Não trouxeste nada mais quente?

Nesta parte apeteceu-me responder: "Trouxe, mas eu gosto mesmo de sofrer".

— Não. Eu sei, sou um totó. Mas é a minha primeira vez na Maratona de Nova Iorque. Para a próxima já sei.

— Olha, tenho aqui uma T-shirt a mais. Queres que te empreste nem que seja para tapares as pernas.

Aceitei. Tapei-me com aquele trapinho, que mesmo assim soube maravilhosamente.

A conversa fez com que o tempo passasse um pouco mais rápido, mas não me aqueceu grande coisa. Resolvi ir dar outra volta e comer mais um bagel e beber mais café. Faltavam duas horas, e comecei a entrar em desespero. Achei, sinceramente, que estava a entrar em hipotermia. Procurei por um posto médico, mas não encontrei. Se o tivesse visto, garanto que me iria enfiar e pedir para me aquecerem, porque temia que me pudesse dar uma coisinha má. Tive de me aguentar.

MARATONA PARTIDA 2.jpg

 

Pensei que podia correr um pouco para aquecer. Depois comecei a achar que se calhar não seria boa ideia gastar energia a correr antes de uma prova de 42 quilómetros, sobretudo porque estava mal preparado. Resolvi andar, andar por ali, cirandar, sem parar, sem destino, só para estar em movimento. Foi o que fiz. Ainda voltei aos bagels e ao café, mais para passar o tempo do que por ter fome. Foram as quatro horas mais longas e sofridas da minha vida. Quando chegaram ao fim quase chorei de alegria. Meia-hora antes do tiro de partida, dirigi-me ao local de partida da wave 1 (como havia 70 mil inscritos, os corredores saíam em quatro waves diferentes, com espaçamentos de 10 minutos entre cada uma). Foi então que percebi que toda a gente começou a tirar os robes, os pijamas, as mantas, os blusões e a enfiar tudo dentro de contentores gigantescos que existiam no passeio. A roupa é toda para o Salvation Army, que a distribui pelos sem abrigo. Uma ótima ideia, que seria perfeita se eu tivesse sabido dela um dia antes.

Entretanto a temperatura já havia subido para uns mais agradáveis zero graus, o vento continuava forte, e quando ouvi o tiro de partida quase me vieram as lágrimas aos olhos de emoção. Mas o sofrimento não ficou por ali...

TO BE CONTINUED...

MARATONA PARTIDA 1.jpg

 

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publicado às 21:29


5 comentários

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De A Pipoca Arrumadinha a 11.04.2015 às 17:03

Grande aventura!
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De Raquel a 11.04.2015 às 20:30

O que me ri...bela descrição.
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De Anónimo a 11.04.2015 às 23:43

ai... continua... estou com frio... conta o resto.
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De Língua Afiada a 13.04.2015 às 10:28

Realmente não sei onde estavas com a cabeça, ao ler a descrição até me arrepiei.
Eu gosto mais de correr com frio do que com calor, mas estar de calções com 10 graus negativos era coisa para me fazer desistir.
Fico à espera do resto, já deu para perceber que foi muito duro.
Mas parabéns pela resiliência.
(Os portugueses em geral são bem mais solidários, de certeza que alguém partilhava uma manta contigo).
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De Vita C a 13.04.2015 às 15:10

Existe Lisbon, Connecticut.
Trabalho o tempo todo com americanos, e foi assim que descobri Lisbon, CT. E que eles descobriram Lisbon, PT...

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