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26
Mai14

A noite eleitoral

por O Arrumadinho

Ontem, pela primeira vez em muitos anos, não fiquei em casa a seguir a noite eleitoral. Não fiquei porque fui um dos muitos portugueses que acompanharam esta campanha a uma distância propositada, porque o que esta classe política nos ofereceu durante duas semanas foi demasiado mau para poder captar a minha atenção. Por questões profissionais, claro que tive de ouvir discursos, ler jornais, estar atento aos sound-bytes e às ideias-chave de cada uma das candidaturas, mas isso só serviu para me afastar ainda mais das pessoas que hoje, e há alguns anos, dominam os círculos políticos, sejam de que partidos forem.

 

Ainda assim, ontem, depois de ter chegado do Rock in Rio (sim, preferi cantar e dançar com o Robbie e a Ivete do que ouvir Seguro, Passos e Portas), liguei a televião e estive a tentar perceber a dimensão dos resultados. E é sobre isso que quero falar.

 

 

Começo pelo maior derrotado: o País. 

Com isto, falo dos números da abstenção. Não sou dos que se atiram aos portugueses por não terem ido votar. Claro que defendo que nenhum de nós deve deixar a decisão nas mãos do outro, sob o risco de nos acontecer o que aconteceu aos franceses, que viram a extrema-direita vencer as eleições, mas compreendo o desencanto de quem não se dá ao trabalho, sequer, de ir às urnas. Ontem, ao contrário de em outros actos eleitorais, nem sequer havia o sol a puxar-nos para a praia, nem fins-de-semana longos, nada, houve apenas falta de vontade das pessoas em ir às urnas. A culpa disto é, exclusivamente, dos políticos e dos partidos. O descrédito desta gente leva-nos a isto. Não cola, sequer, o discurso da esquerda de que "andamos todos a votar nos mesmos há 30 anos", porque, para mim, estes "mesmos", não sendo perfeitos, são melhores do que alternativas mais extremistas - para mim e para a maioria das pessoas. As pessoas não estão fartas do PS e do PSD, as pessoas estão fartas da forma como se faz política em Portugal, estão fartas de ter sempre os mesmos actores políticos em cena, gente que nasceu, cresceu e sobrevive à conta dos aparelhos partidários, gente que não sabe fazer mais nada na vida do que vender umas ideias que já sabe que são falsas e que só as podem apresentar às pessoas porque não estão no Governo, porque quando lá chegarem não as poderão pôr em prática, porque a realidade e a economia do nosso país não permitem que nenhum executivo governe à larga. A abstenção de 66 por cento explica-se assim. Esta gente que ali anda já não convence ninguém, mas todos sabemos que praticamente nenhum deles irá retirar-se, e não o irá fazer por duas razões: não tem para onde ir e não tem o que fazer, porque nunca fez mais nada na vida do que ser polílito. Restar-lhes-á uma qualquer posição de lobista ou um tacho arranjado por amigos ligados ao partido, onde poderão fazer um retiro de quatro ou cinco anos, até voltarem em força, cheios de ideias velhas recicladas e discursos patéticos, populistas e enganadores. 

 

Há muitos anos que defendo uma reestruturação da classe política, uma reinvenção da forma de fazer política, por forma a que deixe de se vender banha da cobra e se passe a pensar nos problemas efectivos dos portugueses e nas melhores formas de os resolver. Isto só é possível com a introdução de tecnocratas nas estruturas de decisão política, especialistas, gente das áreas que entende das áreas, que trabalha nas áreas e vive diariamente com esses problemas. Deve ser um conselho de médicos a discutir os problemas do Ministério da Saúde, deve ser um conselho de professores a debater as soluções para a Educação, deve ser um conselho de agricultores a procurar as melhores soluções para a Agricultura, devem ser os empresários a discutir as grandes questões da indústria. É óbvio que nunca haverá consensos, que mesmo dentro das classes profissionais há visões totalmente opostas para um mesmo problema, mas tenho a certeza que da discussão nascerá uma solução mais razoável, mais consensual, mais eficaz. O problema é que a política é vista como um pântano, e enquanto assim for os maiores especialistas, os grandes cérebros de cada uma das áreas não quererão envolver-se, meter-se na lama, porque já sabem que o mais provável é sairem de lá insultados, humilhados e com o rótulo de gatunos ou coisa que o valha. Por isso, é preciso mudar tudo, começar quase do zero, renovar por completo os partidos, fazer nascer outros, mais frescos, com outras ideias, sem estarem necessariamente encostados à divisão de sempre, a da esquerda e a da direita. 

Eu, por exemplo, não me considero nem de esquerda nem de direita. Não me identifico com nenhum dos partidos existentes em Portugal, e gostava que nascesse essa nova via, que de alguma forma abanasse o sistema. 

 

A vontade do povo de que se abane o sistema é grande - basta ver o resultado eleitoral do populista Marinho e Pinto, como se pode olhar para os resultados das candidaturas independentes nas duas últimas presidenciais, com Alegre e Nobre. As pessoas querem outra coisa, prova disso são estes quase 70 por cento de abstenção.

 

Sobre os resultados efectivos, nenhuma surpresa. Tal com esperava, o PS teve uma vitória froxa e sem expressão, e a culpa é muito mais de António José Seguro do que de Francisco Assis, que me pareceu um bom candidato. Desde o primeiro dia da campanha eleitoral que Seguro andou trocado, a achar que ia entrar numas legislativas, com a ideia-chave "vamos derrubar este governo e a política deste governo". Não, Tozé, não era isso que estava em causa nestas eleições. Há dois anos dizia-se uma piada relativamente a Vítor Pereira, então treinador do FC Porto, que posso adaptar agora à política: actualmente, até com um macaco na liderança o PS ganharia estas eleições. Vejo zero de mérito de Seguro na vitória, mas vejo muito de demérito de Seguro no facto de a vitória ter sido curta. Ele pode dizer que ganhou a dois partidos juntos, pode dizer que teve mais votos do que nas anteriores Europeias, que eu só lhe digo que na actual conjuntura, após três anos de um governo que teve de cumprir com um plano de ajuda externa, com uma necessidade de acertar as contas do país, subindo impostos, cortando regalias às pessoas, impondo uma austeridade necessária (se bem que em muitos pontos discutível), seria de esperar que o PS esmagasse por completo a coligação e não tivesse uma vitória magrinha, como a que teve. Isto aconteceu porque Seguro não consegue afirmar-se como alternativa, consegue ser, quanto muito, o único escape para as pessoas descontentes, que vêem nele o mal menor.

 

A derrota da coligação também era previsível, por números que também podem ser vistos internamente como preocupantes, mas, uma vez mais, na actual conjuntura política, não me parece que Passos e Portas se devam envergonhar, pelo contrário. O normal seria a coligação ter um resultado humilhante, uma derrota esmagadora, uma percentagem muito mais baixa do que a quer teve. O normal, se o PS fosse uma alternativa sólida, seria o PS ter uma votação na casa dos 40-44% e a coligação ali entre os 18-20%. Não foi o que isso aconteceu. As pessoas não são assim tão estúpidas como Seguro pensa.

 

Só quato notas a fechar, para os partidos mais pequenos.

A máquina do PCP voltou a mostrar que está oleada, alcançando um óptimo resultado, depois de uma campanha sólida, quer de Jerónimo quer de João Ferreira, um miúdo com grande futuro dentro do partido. O voto nos comunistas é sempre um voto seguro em pessoas que todos sabemos que têm excelente capacidade de trabalho, que estão no parlamento ou no parlamento europeu a trabalhar para as pessoas, e não apenas à procura de um tacho. Mesmo não se concordando com as ideias-chave defendidas pelo PCP - e eu não concordo - é preciso reconhecer que os comunistas são aquilo que se espera de um partido.

 

O Bloco é o contrário de tudo isto, e a culpa, claro, está nesta liderança bi-partida que não faz sentido absolutamente nenhum. Se os bloquistas não põem a mão na cabeça, não param dois segundo para pensar no que lhes aconteceu, então, só podem esperar por mais um desastre, nas legislativas, que pode ser o impulso que faltava para o fim do partido.

 

Sobre Marinho e Pinto só posso dar graças por ter sido eleito. É da maneira que nos vemos livre dele por uns anos.

 

O Livre foi a minha grande decepção nestas Europeias. A culpa foi de uma campanha mal feita, que não chegou às pessoas. Duvido que alguém tenha percebido a mensagem-chave do partido. Não acho que Rui Tavares deva desistir, mas, sim, pensar em rodear-se de pessoas mais eficientes que o ajudem a melhorar a forma de chegar às pessoas.

 

 

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publicado às 09:42


36 comentários

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De aheadandbeyond a 26.05.2014 às 10:51

Boa análise, Arrumadinho. Como estudante e quase Mestre em Estudos Europeus (faltam apenas a nota da tese e os ultimos exames) estou interessada em saber a sua opinião e ler uma análise mais detalhada sobre os resultados destas eleições a nível europeu, se assim entender. Não lhe escondo a preocupação que senti ontem à noite ao seguir o especial da Euronews, e ver os discursos de Marine Le Pen, Nigel Farage e demais extremistas. Embora defenda que é preciso ouvir as vozes dissidentes e inclui-las no diálogo europeu, parece-me que com estas eleições acabou por haver uma mistura entre eurocepticismo e extremismo. Se por um lado isto pode significar o fim do chamado "permissive consensus", por outro também significa que nos esperam tempos muito difíceis: caso Juncker venha de facto a ser o novo presidente da Comissão Europeia, vamos ter uma frente extremista no Parlamento Europeu e um Presidente do orgão executivo europeu que já assumiu publicamente durante a campanha que se recusa a dialogar ou ouvir vozes eurocépticas.

Peço desculpa pelo longo comentário mas é de facto um tema que me interessa e sobre o qual gostaria de o ouvir. Cumprimentos :)
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De Rita a 26.05.2014 às 11:04

Para mim duas coisas me preocuparam: a abstenção e a subida extrema-direita de outros países europeus. As duas coisas estão ligadas (não em Portugal, felizmente a extrema-direita não é levada a sério aqui), e por isso é urgente as pessoas irem votar. Se não quiserem votar em nenhum dos partidos, votem em branco. Eu percebo que as pessoas estejam desesperadas e não queiram saber.. Mas se não querem mesmo saber, votem em branco. Abstenção não é um protesto, o voto em branco sim.
Agora vamos ver como corre com os eurodeputados extremistas. Mas lá que é assustador ver uma Europa assim.. Ui.
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De homemsemblogue a 26.05.2014 às 11:48

Percebo essa perspectiva de que o país é o derrotado. Mas acho que a classe política deveria perceber os motivos que levam dois terços dos votantes a ficar em casa sem votar. É o total descrédito no que temos e nas opções que se apresentam. É triste que assim seja. E os comentários mostram que eles não se preocupam com as pessoas mas apenas com o tempo que vão continuar a mandar e a encher os bolsos.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De Teresa a 26.05.2014 às 11:58

Mas porque será que quando aparecem candidatos contra o sistema são populistas e demagogos? Por um lado estão fartos dos políticos dos principais partidos, por outro, se aparece alguém mais inconformado e contra o sistema, também não servem porque não passam de fala-baratos, ou seja, populistas. Então votamos em quem? Os comunistas também não servem porque como não chegam ao poder, só sabem é ser do contra. Conclusão: votam sempre no PS ou PSD porque são os mais "credíveis", mas no entanto são os mais fingidos pois só se lembram das pessoas nas campanhas. E os que nos roubam mais. Fora delas, fogem das pessoas a sete pés com receio das críticas. Os outros não passam de palhaços. Sinceramente já não sei em quem votar. E que tal se começássemos a dar oportunidade aos partidos mais pequenos? O que é que temos a perder?
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De Anónimo a 26.05.2014 às 12:11

" Não me considero nem de esquerda nem de direita"
Então porque será que tudo o que diz a seguir anula esta frase?
Pelo menos seja sincero consigo mesmo!!
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De O Arrumadinho a 26.05.2014 às 12:20

Caro anónimo, eu sou sincero comigo. Não sou de esquerda, não sou de direita. Defendo algumas linhas orientadoras da esquerda, outras da direita. Já votei à esquerda (Bloco, CDU, PS) e à Direita (PSD), consoante determinados projectos/candidatos/conjunturas eleitorais, mas não me revejo em nenhum dos actuais partidos. É isto.
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De Filipa a 26.05.2014 às 15:20

É mais de esquerda que de direita desculpe arrumadinho. Votou extrema esquerda ja varias vezes e nunca extrema direita. Isso mostra uma queda óbvia sua para a esquerda. E acredito que só tenha votado centro direita única exclusivamente porque é completamente inegável o estado deplorável que o ultimo governo de centro esquerda deixou este pequeno pais.
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De David Cabanas a 26.05.2014 às 12:14

mais de 60% de abstenção...é o número que para mim marca a noite eleitoral...é muita gente desligada, alheada de tudo isto...se somarmos votos nulos e brancos quase que atingimos 70%...claro que dá azo a aparecerem surpresas como a do MPT...os principais partidos precisam de mais surpresas para abrirem os olhos...muita gente critica o Marinho Pinto mas quem votou nele duvido que tenha votado para o mandar emigrar...
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De Ana a 26.05.2014 às 12:26

Bom dia Ricardo,
Ainda bem que decidiu regressar à escrita no blogue. Gosto dos seus textos em geral, partilhe ou não da mesmo opinião.
Em relação às eleições, devo dizer que o que mais me incomodou foi não haver distinção entre abstenção e absentismo. Acho que nunca tinha pensado nesta questão, porque nunca tinha votado em branco. Mas... desta vez foi diferente. Fui votar, cumpri uma vez mais o que considero ser um dever cívico, votei em branco e à noite vi a minha decisão englobada no rol dos que nem se deram ao trabalho de se deslocarem às urnas (sem julgar as razões de cada um relativamente a esta não-acção). Acho inaceitável! Porque acho que são leituras completamente diferentes. O voto em branco, a abstenção, significa a não identificação com os partidos representados no boletim de voto e a opção clara de não escolher nenhum. O absentismo, o não ir votar, pode significar um monte de coisas, entre as quais se incluem os típicos "não me apetece", "fui à praia", and so on...
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De Nelito a 26.05.2014 às 12:32

Não concordo com as decisões serem dadas às classes que irão beneficiar delas. Primeiro, porque parte do problema vem daí. Segundo, porque sendo da classe e decidido dentro da classe, nenhum agricultor vai dizer que "Não" a subsidios para isto ou aquilo. Acho que o modelo atual de audição das associações empresariais, Ordens e afins, com todos os seus erros e falhas que são muitas, é o melhor. As decisões políticas devem ser tomadas pelos políticos, por terem a vantagem de estarem distanciados das questões.
É claro, e óbvio, até em todas questões, que isto é lindo no plano teórico, mas se um político já é susceptível de lobby para favorecer x ou y situação, como seria um conselho de agricultores a decidir medidas para esta ou aquela região, ou médicos a tomarem decisões de serviços para este ou aquele centro hospital, ou empresarios a decidirem apostar em 2 ou 3 setores e reduzir noutros? Uma luta de galos pelo poleiro, é o que acho que seria.
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De Paulo a 26.05.2014 às 13:38

Bom tarde Ricardo,

Excelente análise. Um fui dos que se absteve mas por uma das razões que aí não está: não acredito na Europa no formato que está a seguir. Só por isso.

Acho que essa leitura tem sido descurada pela maior parte dos analistas portuguesas mas que por essa Europa fora tem vindo a ser mencionada.

É o velho mal português de discutir o que realmente está em questão.

Abraço,
Paulo
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De Anónimo a 27.05.2014 às 16:40

Então votasse em branco! Fui sempre votar desde que me recenseei (há 8 anos), excepto uma vez que tinha uma viagem marcada e votei sempre em branco. Nunca me revi em nenhum dos partidos/candidatos, mas seria impensável não exercer aquilo que considero ser um DEVER enquanto cidadã. Errado é não ir votar, deixar a decisão na mão de uma minoria e depois ainda vir criticar o que aconteceu.
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De Pedro a 26.05.2014 às 13:43

Sempre assertivo. Concordo essencialmente com a falta de renovaçao de agentes políticos, mesmo dentro dos partidos usuais.

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