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04
Set14

A Nôno

por O Arrumadinho

Confesso que despertei tarde para o drama da Nonô. Quando parei para tentar perceber quem era a criança de que todos falavam à minha volta, já o caso era de domínio público. Fui então perceber melhor os contornos de todo este drama e, como quase toda a gente, comovi-me com a luta daqueles pais, com o sorriso permanente da criança e a forma inocente e feliz como ela vivia os seus dias, apesar de tudo o que lhe estava a acontecer.

 

 

Quando conheci melhor o caso ainda trabalhava na Cofina, onde me cruzava quase todos os dias com a Lara Afonso, tia da Nôno, que falava da sobrinha com um carinho único e era, também ela, um rosto da luta de toda a família.

Talvez por ter deixado o edifício, e ter perdido um pouco o contacto com os avanços da doença, fiquei incrédulo quando soube, ontem, da morte da Nôno. O sentimento, percebi quase de imediato, era comum a centenas de amigos que tenho nas redes sociais. Aos poucos, todos eles foram substituindo a sua foto de perfil por um fundo cor de rosa, uma homenagem simbólica à criança. Para algumas pessoas, é difícil entender como é que gente que não conhece uma criança de lado algum pode sentir-se triste ou abalada com essa morte. Para mim, é muito simples. A luta da Nonô é simbólica para todos. Não deve haver um pai ou uma mãe que não se coloque, ainda que por segundos, na pele da mãe da Nôno, que não pense: "Porra, se isto fosse com o meu filho...". Sinto que é daí que nasce este sentimento comum de tristeza pela morte desta criança. Os avanços da doença aumentavam essa tristeza em todos nós, as pequenas vitórias da Nonô eram vividas por muitos como uma pequena esperança. Acredito que é também por isso que esta morte mexeu com tanta gente.

 

Depois, depois há os outros, os indignadinhos do costume, gente que acha que a prioridade deve ser sempre a de ser cool e não embarcar em movimentos populares. Não tardou que começasse a ler mensagens de gente irritada por estarem todos a pintar o Facebook de cor de rosa, a lamentar que todos chorem a morte de uma criança que não conhecem de lado nenhum, chateados por haver meio mundo triste com esta notícia. 

Não tenho nada contras as pessoas a quem lhes passa ao lado este assunto, o que me intriga é que haja gente verdadeiramente chateada só porque há gente triste com a morte de uma criança. Haters gotta hate. O costume.

 

 

 

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publicado às 20:57


20 comentários

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De The Luso Frenchie a 04.09.2014 às 22:09

Não sabia que havia pessoas (???) que estavam irritadas por muitos estarem tristes pela partida da Nono...é incompreensível. Apesar de não a conhecer, segui o combate desta pequena guerreira. Tenho dois filhos, um da idade da Nono...é impossível não me passar pela cabeça o "e se fosse um filho meu". Uma criança não deveria sofrer, estar doente...morrer...não devia...
Tal como não deveriam existir estes haters...ou ranhosos...como lhes quisermos chamar.

http://thelusofrenchie.blogspot.pt


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De Sónia a 04.09.2014 às 22:21

Eu não conheço pessoalmente nenhum familiar da Leonor, nem nunca conheci a Nonô. Ontem à noite quando soube da sua morte chorei. Chorei por ela, uma criança, pelos pais e ...porque sou mãe! Quando nos tornamos pais e mães vemos e sentimos tudo de maneira diferente. Que descanse em paz a pequena Nonô.
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De silvia a 04.09.2014 às 22:35

E não conseguiria escrever melhor ....
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De S. a 04.09.2014 às 23:05

Subscrevo na íntegra. É inacreditável como é que, frente a tamanha dor, ainda há quem encontre espaço para criticar.
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De D a 04.09.2014 às 23:13

Olá.
Eu não acho que se deva ficar chateado com aqueles que estão tristes com a morte da criança, mas sinceramente, não percebo o "drama" à volta de toda esta situação.
Existem tantas crianças a morrer por este mundo fora, e as pessoas ficam assim porque uma criança morreu.

Eu quase que sinto isto como se fosse um momento para se "fingir que se chora"... as pessoas não estão realmente preocupadas, sentem pena, mas logo esquecem. A morte da Nono é triste, mas a ignorancia para com todos os outros que falecem e não se fala, é ainda mais triste.
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De doinconformismo a 04.09.2014 às 23:24

É Nonô e não Nôno se faz favor. Obrigada.
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De Sofia Castro a 11.09.2014 às 16:32

Neste caso, a acentuação muda tanta coisa! (ironia)
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De Daniela a 05.09.2014 às 08:29

Sou uma entre tantas que mudou a foto de perfil para cor de rosa e sou também Mãe. O seu texto resume o sentimento generalizado pela partida da Nôno.
Apenas um pequenino reparo, falar daqueles "indignadinhos" é dar-lhes muita importância. A Vida (esta ou outra) encarregar-se-á de um dia fazê-los perceber o que significam as palavras Amor e Solidariedade. Lamento profundamente que "esses" nunca tenham sido amados.
A Nôno ensinou-nos muitas coisas (e eu nunca a conheci) e a sua força era do tamanho do Universo.
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De Cantinho da Bê a 05.09.2014 às 09:38

Acompanho há vários meses o caso da Nô, contribuí para ela e sorri com cada sorriso maravilhoso que ia sendo publicado no facebook. Era impossível ficar-lhe indiferente, porque ela era o rosto da coragem, da fé, da inocência de uma menina a lutar numa batalha inglória. Fui apanhada de surpresa, porque até há poucos dias, tudo parecia ir no bom caminho. Quando soube da morte chorei, fiquei abalada, mudei o meu perfil para cor de rosa e publiquei tanto no facebook como no meu blogue, homenagens. Não sou mãe, mas sou tia, sou irmã mais velha, sou mulher e apaixonei-me pela história desta menina. Os outros, os que não compreendem, não me podiam ser mais indiferentes.
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De homem sem blogue a 05.09.2014 às 09:58

Curiosamente li o teu texto ontem, ao final da noite. Depois de ter lido diversos comentários/textos partilhados no facebook a criticar quem sentiu esta triste história de uma forma especial.

A vontade foi copiar o teu texto e colar em todos os sítios onde estavam esses comentários/textos.

A parte final do teu texto diz tudo. É triste que assim seja mas assim irá continuar a ser.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De Caco a 05.09.2014 às 13:25

Partilho totalmente da tua opinião.

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