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14
Abr15

Invariavelmente, de vez em quando lá me chega um daqueles comentários de gente que acha que eu sofro de alguma patologia pelo simples facto de correr com alguma regularidade. Não corro todos os dias, há fases da vida em que corro até muito pouco, mas há outras, sobretudo quando estou a preparar provas maiores, em que tenho de treinar quatro ou cinco vezes por semana, para seguir planos específicos que me permitam correr 21 ou 42 km sem enfrentar grandes riscos.

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Já houve gente, até, que chamou hipster por ter aderido ao que chamou de moda das corridas. Só mesmo que nunca me leu é que acha que eu corro por uma questão de modas. Felizmente, quem por aqui anda há alguns anos sabe que devo ter sido o primeiro blogger com algum peso ou influência a falar de corridas e deste meu vício que já tem pelo menos 20 anos. A primeira memória que tenho de uma meia-maratona que corri é do ano em que entrei para a universidade, ou seja, de 1994, quando corri a meia de Setúbal. Por isso, virem agora dizer-me que quero seguir modas é uma coisa que me dá alguma vontade de rir.

No blogue da minha mulher a polémica é maior, claro, porque ali também tudo é noutra escala. Mas muitas vezes atacam-na no plural, metendo-me ao barulho. Ontem, uma comentadora falava sobre "a obsessão com o desporto e a vida saudável", classificando isto como "uma doença" que nos irá prejudicar. No fundo, para ela, estamos maluquinhos por causa do exercício e da alimentação, mais ou menos como se estivessemos agarrados à droga ou ao álcool.

Ora bem, só posso mesmo achar que este tipo de comentários vem de alguém que não mexe um dedo, ou melhor, só o mexe para o apontar aos outros, ao patrão, à sociedade, ao emprego, aos filhos, dizendo que a culpa de ter uns quilos a mais é de todas essas pessoas ou circunstâncias, e não dela mesma. E esta é uma tecla na qual bato há muito, muito tempo (o que também já me valeu algumas ofensas — recordo-me deste post que escrevi sobre a Maria Kang, aqui há uns tempos): a culpa de engordarmos, de não estarmos em forma, é, em primeiro, segundo, terceiro e quarto lugar nossa. Não é da falta de tempo, não é dos filhos, não é do emprego absorvente, é nossa. Somo nós que estabelecemos as nossas prioridades na vida, e se perder peso for uma prioridade, se colocarmos esse factor no topo das nossas tarefas, vamos conseguir (ou vamos tentar a sério, pelo menos).

Claro que há coisas que vão ter de ficar para trás, mas nem sempre essas coisas têm de ser o emprego, o marido ou a mulher ou os filhos, que devem estar sempre lá em cima. Muitas vezes, é só preciso dormir uma hora a menos, passar uma hora a menos no sofá, procrastinar no trabalho uma hora a menos, perder menos uma hora nas redes sociais. É tudo uma questão de opções, prioridades e força de vontade.

Eu próprio me desculpo algumas vezes com a falta de tempo. Fi-lo durante muitos meses, ainda recentemente. Achava que não conseguia fazer tudo, que era impossível treinar, tratar dos miúdos de manhã, ir com o cão à rua, trabalhar, cozinhar, ir levar os putos à escola, muitas vezes ir buscá-los, dar aulas, preparar aulas, escrever blogues, ler livros e ainda ter algum tempo para as minhas séries ou filmes e ainda correr. O tempo não esticava, não dava. Dava, claro que dava, e eu sabia que dava, mas estava desmotivado, tinha uns quilos a mais, e não me apetecia verdadeiramente começar.

O início custa, o corpo pesa mais, a resistência é menor, falta-nos o ar, o coração dispara, as pernas não aguentam, e parece que nas primeiras duas semanas nunca há resultados visíveis. Não me apetecia passar por isso, então deixei andar. Só que depois chegou aquele dia em que olhei para o espelho e senti que tinha mesmo de fazer qualquer coisa. Sentia-me mais flácido, cansado, sentia-me, sobretudo, desmotivado, tristonho, rabugento, irritadiço. Faltava-me o exercício, a corrida, que sempre me acompanhou a vida toda, que sempre me serviu de terapia, que sempre foi o escape para muitos problemas, que sempre me ajudou a limpar a cabeça de mil e uma merdas. Então dei o passo. "Vamos a isto". E fui.

Em meados de Dezembro, uns dias depois de ter começado a controlar a alimentação e recomeçado a correr, participei no Grande Prémio de Natal, uma corrida de 10 km pela Avenida da República. Foi, penso, a primeira corrida desde que resolvi voltar a treinar. Levei 47 minutos até à meta. Senti-me acabado, de certa forma triste. Para muita gente pode até parecer um tempo ótimo, mas para mim não é, porque sei quais são as minhas capacidades (corro normalmente em 42 minutos, sendo que já fiz 39'07''), sei o que consigo fazer, mesmo quando não estou em grande forma, mas foi também esta marca que me deu vontade de continuar a lutar. Duas semanas depois, fiz a Corrida de São Silvestre de Lisboa, mais 10 km. 48 minutos. Foi, que me lembre, a pior marca aos 10 km que me lembro de fazer. Até em treino, a ritmo ligeiro, costumava fazer entre 46 e 47 minutos. Agora, em prova, onde somos sempre mais rápidos, estava ali com uma marca miserável, e isto com três semanas de treino e dieta. É certo que não tinham sido treinos muito intensos, que para lá de corrida também fiz alguns treinos só de ginásio, mas custou-me muito ver aquele número, aquele tempo. Foi duro.

Como sempre, a viragem do ano foi também a viragem de hábitos, de forma mais radical. Voltei a um plano alimentar saudável, acabei com as jantaradas de pizza, massas e sushi, cortei no pão e nas azeitonas antes do almoço, nas gomas, nos chocolates e nas sobremesas, comecei a comer muito mais sopa, snacks durante o dia, e, lentamente, passei a sentir-me melhor.

Ainda antes de começar a treinar no duro, quis resolver os problemas de alimentação. Depois, então, dediquei-me aos treinos. Conhecia as minhas rotinas, sabia, por exemplo, que o Mateus acordava por volta das 7h30/8h00, sabia que se deixasse o treino para o fim do dia ou para a noite não o conseguiria fazer (porque há sempre qualquer coisa que acontece, um atraso, um imprevisto), por isso, só me restava treinar antes de ele acordar. Foi o que fiz. Comecei a acordar às 5h50, 6h00 ou 6h30, conforme os dias, para ir correr, e isto quatro ou cinco vezes por semana. Comecei com treinos mais curtos, depois fui introduzindo um ou outro mais longo, e, mais à frente, passei a fazer séries, uns treinos rápidos e intensos, outros mais longos e a velocidades moderadas, outros intervalados.

O meu dia não cresceu, eu apenas coloquei no topo das minhas prioridades o treino, o perder peso, o sentir-me melhor, em forma, e isso ajudou tudo o resto: fiquei mais bem-disposto, mais confiante, mais feliz, mais positivo. Deixei para trás uma hora de sono, uma hora de sono e meia-hora de livros ou séries, já que passei a deitar-me um pouco mais cedo, e isso valeu-me uma imensidão de coisas boas.

Hoje, quatro meses depois, tenho conseguido manter as rotinas, quer de treino, quer alimentares. Sinto-me bem, mas estou muito longe de me sentir obcecado pelo treino ou pelas dietas. Gosto de treinar, mas não fico ansioso quando não vou correr. Gosto de comer bem, mas se vou a uma festa como tudo, se tenho um jantar de amigos como sobremesas, bebo vinho ou sangria, não sou aquele tipo de pessoa que leva a sua própria marmita com bróculos cozidos e peito de frango (sim, existem pessoas assim). Aliás, ao fim de semana, sou bastante mais descontraído com a alimentação. Procuro não fazer disparates enormes (como comer três sobremesas numa festa de anos, ou 20 fatias de enchidos), mas faço alguns, como pizza, sushi, uma mousse de chocolate, só que sempre em menores quantidades) e sinto-me feliz com isso, dou muito valor a poder comer aquelas coisas de vez em quando.

Isto tudo para falar sobre as críticas de algumas pessoas a esta minha realidade. Sinceramente, não consigo ver um problema nisto. Nem um. Não entendo como é que fazer exercício e comer bem pode ser visto como um defeito, uma obsessão ou uma doença. Em casos extremos, sim, claro, mas sinceramente acho que estou muuuuuuuito longe de ser esse tipo de pessoa. Sou apenas um tipo relaxado que gosta de dar umas corridas, gosta de entender o fenómeno da nutrição e gosta de ser saudável (e sou, felizmente).

Por isso, o único conselho que posso dar a quem faz estas críticas é o seguinte: procurem fazer o mesmo. Vão ver que se vão sentir muito melhor, provavelmente vão até ficar menos amargos e mais positivos. Se precisarem de ajuda, é só dizer.

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publicado às 21:26


44 comentários

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De Anónimo a 14.04.2015 às 22:47

"Eu próprio me desculpo algumas vezes com a falta de tempo. Fi-lo durante muitos meses, ainda recentemente. Achava que não conseguia fazer tudo, que era impossível treinar, tratar dos miúdos de manhã, ir com o cão à rua, trabalhar, cozinhar, ir levar os putos à escola, muitas vezes ir buscá-los, dar aulas, preparar aulas, escrever blogues, ler livros e ainda ter algum tempo para as minhas séries ou filmes e ainda correr. O tempo não esticava, não dava. Dava, claro que dava, e eu sabia que dava, mas estava desmotivado, tinha uns quilos a mais, e não me apetecia verdadeiramente começar.
O início custa, o corpo pesa mais, a resistência é menor, falta-nos o ar, o coração dispara, as pernas não aguentam, e parece que nas primeiras duas semanas nunca há resultados visíveis. Não me apetecia passar por isso, então deixei andar. Só que depois chegou aquele dia em que olhei para o espelho e senti que tinha mesmo de fazer qualquer coisa. Sentia-me mais flácido, cansado, sentia-me, sobretudo, desmotivado, tristonho, rabugento, irritadiço."

Porque não escreves sempre assim? :)
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De André a 14.04.2015 às 22:53

Só porque não leva a marmita para o jantar não precisa de fazer um comentário juncoso (sim há pessoas assim).

Se as há é porque têm objetivos importantes para elas também.

Tirando isto, bom texto.
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De Mariana a 15.04.2015 às 16:59

Comentário "juncoso"? Porquê, vem com juncos? Ahah... jocoso!
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De João a 14.04.2015 às 23:01

És um bocado cuidadoso demais com os tais que fazem as críticas. No mínimo, em vez de "procurem fazer o mesmo", seria "get a life!". Ah ok, talvez não entendessem istrainjeiro, mas para isso é que há tradutores online....
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De Carla a 16.04.2015 às 15:20

*estrangeiro
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De Rita a 14.04.2015 às 23:02

Hahaha... Só dá para rir, mesmo. Se todas as doenças/obsessões fossem assim!...
Com esta nova moda das corridas e do fitness em geral que apareceu recentemente (que espero que dure e se propague ainda mais, só nos fazia bem a todos, quer adiramos por moda ou não), veio também a moda de dizer mal só porque sim, porque "são todos uns hipsters", porque "canso-me de tantos posts sobre o assunto", porque "têm a mania que são melhores que os outros". Sosseguem! Querem treinar e comer bem, ótimo, não querem, ótimo também. Cada um sabe de si.
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De Anonimo sem blog a 15.04.2015 às 00:14

Ora eu já corro há algum tempito e incomoda-me não a corrida ou as corridas, mas a "moda" e o facto de alguns pensarem que correr é a ultima descoberta. E incomoda-me que de repente correr uma meia seja um desígnio, e que quem não corra esteja "out". E sim, odeio o termo running. E os vips nas corridas. E o raio das selfies.
Acho demasiada a preocupação com massas gordas e derivados, o desporto serve para nos sintamos bem, não para "sofrer". Porque em excesso, a actividade física prejudica a saúde, nem que seja no futuro.
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De Catarina a 15.04.2015 às 18:51

É saudável ter 1,73m e pesar 56kg, estando no limiar 19,2%massa gorda sendo que baixando 3% ja é abaixo do normal (e por conseguinte do saudável)??? Entao Defina-me saudável pfv :)
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De O Arrumadinho a 15.04.2015 às 23:19

Catarina, a resposta à sua pergunta está na própria pergunta. Está a ver a parte que em diz que 19,2% de massa gorda é um valor normal? Pronto, se é normal, é saudável. Não desvalorize esses 3% de massa gorda. Olhe que é coisa para levar muitos meses a ser eliminada.
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De Anónimo a 20.04.2015 às 12:11

Estou completamente de acordo!
Também corro à anos, sou mulher o que era um pouco estranho à uns anos e odeio esta esta moda de correr de "saltos altos" a tirar selfies ao mesmo tempo num grupo de "amigas improvisadas". Não gosto de pagar para correr. Corro porque me sinto bem e isto não se explica!
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De Sofia a 15.04.2015 às 00:16

Lembrando só que ninguém tem a obrigação de ser "fit". Reparo muitas vezes que as pessoas que praticam desporto pensam que toda a gente quer ser fit, qual estatuto a que todos almejamos. Pois, não. Detesto exercício, tenho barriguinha e flacidez apesar de pesar menos de 50kg e, pasme-se, não estou de mal com a vida nem desejo outro corpo que não o meu!
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De Ana a 15.04.2015 às 12:02

Com o devido respeito a Sofia parte de um pressuposto errado. O treino não serve apenas para ficar "fit". Pense na velha máxima do "mente sã em corpo são". Um corpo flácido não é só um problema estético. A gordura abdominal não é saudável.
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De Mr a 15.04.2015 às 23:10

Mas porque é que um corpo flácido é um problema estético? Mania de padronizarem os corpos...
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De Joana a 16.04.2015 às 00:24

Mr, não se exalte, se quer ter um corpo flácido, sinta-se à vontade. Como é óbvio ninguém a vai obrigar a tonificar, você é que sabe da sua vida. Agora, a Ana tem razão, a gordura abdominal não é saudável e pode trazer alguns problemas futuros.
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De Melanie a 15.04.2015 às 00:19

Eu tenho uma pergunta/ curiosidade.. Tb comecei a levantar me mais cedo para ir correr. Então e o que come ao pequeno almoço? Já experimentei fazer o mesmo mas ou sentia mta fraqueza (mesmo comendo um bom pequeno almoço) ou sentia a "dor de burro" por causa da digestão..
Vejo me "obrigada" a ir correr ao fim do dia, o que não me dá nada jeito em horários.
Obrigada ;)
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De O Arrumadinho a 15.04.2015 às 23:23

Olá Melanie. Depende muito de pessoa para pessoa. Eu costumo comer apenas meia banana, ou uma dose de whey protein com 150 ml de água. Tomo o pequeno-almoço depois. Se costuma sentir fraqueza, terá de comer qualquer coisa com açúcares rápidos, que entrem logo na corrente sanguínea, como pão branco, uma banana inteira, uma barra energética. Não deve comer muito antes de treinar.
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De Anónimo a 15.04.2015 às 09:47

Porque é que tem a necessidade de se justificar?
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De Sara a 15.04.2015 às 10:20

Parabéns pelo texto! Este foi o primeiro texto que li no seu blog e senti que disse tudo. Disse tudo o que eu penso e no geral tudo o que também eu ouço. O mais comum é dizerem-me que estou obcecada com as corridas ou esquisita com a comida (não sou, como de tudo, mas recuso 1Kg de carne às 9h da noite ou coisas a boiar em gordura). Já ouvi isso tantas vezes que agora o que faço é virar-lhes as costas e ir correr, a minha melhor terapia. Cada um é feliz com o que tem e espero que eles sejam felizes com os seus pneus, cigarros e cerveja. Eu escolho ser feliz de outra forma.

Acho que depois deste texto só me resta seguir o seu blog ;)
Só não o devo ter descoberto antes porque há quase 10 anos que não moro em Portugal e demoro mais a descobrir as coisas...
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De MS a 15.04.2015 às 10:24

Acho excelente que alguém como tu admita e diga que por vezes também temos momentos de desmotivação e que não somos super-homens como muitos querem fazer parecer. Essa tua honestidade e vontade de dar a volta por cima motiva imenso quem te lê! :)
A mim também me custou retomar os treinos de ginásio e não vejo a hora de voltar a correr sem limitações!
Abraço

MS Blog (http://ms-blogue.blogspot.pt/)

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