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03
Fev14

Morreram-me os dois

por O Arrumadinho

Ontem perdi dois dos meus maiores ídolos do cinema. Um morreu, o outro morreu-me. 

Sobre Philip Seymour Hoffman só posso dizer que atirou ao lixo uma vida, uma família, três filhos e um talento que nasce com muito, muito poucos. E quem desperdiça tudo isto, quem não sabe viver, respeitar-se, respeitar os outros, quem espeta uma merda de uma agulha no braço e se injecta com heroína depois de 22 anos sem consumir álcool e drogas perde muito do respeito pessoal que se pode ter por ele. O profissional fica, claro. 

Nunca me esquecerei da primeira vez que o vi, em "Happiness", para mim a mais brilhante de todas as suas personagens, melhor ainda do que a de Capote, que lhe valeu o óscar.

É daqueles actores que nunca se esquecem, que vão estar sempre presentes, infelizmente, apenas no passado. 

 

A morte de Hoffman foi um choque. Mas não me doeu tanto quanto a do maior de todos os meus ídolos, Woody Allen. Li ontem, pela primeira vez, a carta que a sua filha adoptiva, Dylan O'Sullivan, publicou no "New York Times", em que conta como o pai abusava dela quando ela tinha sete anos. O relato é tenebroso, assustador, e não pode deixar indiferente quem sente Woody Allen como um génio, que é o meu caso. Mas custa-me respeitar um génio pedófilo. Custa-me mesmo.

Pode argumentar-se, claro, que ele nunca foi acusado pela justiça, nunca foi condenado por este crime, e isso fará dele um homem inocente. Pois, mas custa-me muito a acreditar na versão dele, sobretudo depois de ler a de Dylan, que, agora, 25 anos depois, não me parece que tenha qualquer tipo de motivação para expor um caso do passado, que não seja o de apresentar uma verdade que tende a ser esquecida, entre tantos e tantos elogios, prémios e reconhecimentos do realizador. O que espoletou esta necessidade de falar foi o tributo recente feito ao seu pai, bem como a nomeação para mais um óscar. Dylan achou que estava na hora de contar, pela primeira vez, tudo o que viveu com o pai, a forma como contou os abusos à mãe, os anos que andou de médico em médico, numa tentativa de ser descredibilizada, já que estava a acusar um ídolo, uma estrela, ainda que fosse o seu pai. O caso nunca avançou, Woody nunca foi julgado, e o caso acabou esquecido.

 

Uns anos depois, Mia Farrow descobriu no apartamento de Woody Allen fotos de nus da sua filha adoptiva coreana, Soon-Yi (que não filha de Woody Allen, mas sim de Mia Farrow com o seu ex-marido Andre Previn), que na altura teria perto de 18 anos. Woody Allen acabaria por iniciar um relacionamento com ela, que dura até hoje. Este episódio, para mim, vem reforçar as acusações agora reveladas por Dylan. Podem argumentar que Soon-Yi é maior, e que é muito diferente ter relações com uma miúda de 18 e com uma criança de 7, claro que é, mas a predisposição de Allen se envolver com crianças, crianças essas dentro do seu ciclo familiar (mesmo não sendo pai de Soon-Yi, era uma espécie de padrasto, e é pai de um irmão de Soon-Yi, Ronan, hoje com 26 anos, e que é filho e cunhado de Woody Allen).

 

Claro que Mia Farrow é tudo menos uma santinha, basta olhar para a sua vida, para os inúmeros casamentos, ou até para o facto de, agora, ela dizer que acha que o pai biológico de Ronan não é Woody Allen, mas sim Frank Sinatra, com quem fora casada nos anos 60, e que sempre foi o amor da sua vida. Supostamente, e segundo ela, os dois voltaram a envolver-se várias vezes ao longo da vida, e numa dessas vezes, nos anos 80, no período em que ela namorava com Woody Allen. Mas isso não tira qualquer credibilidade ao relato de Dylan.

 

Estamos perante um crime que já tem mais de 20 anos, que não poderá ser julgado, e que, por isso, poderá apenas construir convicções na cabeça das pessoas. E a minha é a de que Woody Allen abusou de uma criança de sete anos. E ninguém me conseguirá tirar isso da cabeça.  

 

Podem ler o texto de Dylan aqui

Woody Allen leu o texto, classifica-o como "vergonhoso" e "mentiroso", e insiste na mesma tese que apresentou na altura em que o caso ficou conhecido, a de que foi Mia Farrow quem manipulou a filha para o incriminar. Eu só pergunto: então se foi isso que aconteceu, o que é que motiva, agora, Dylan a contar tudo o que se passou? Pois, nada, digo eu.  

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publicado às 10:09


38 comentários

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De Sara Costa a 03.02.2014 às 11:19

Subscrevo!
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De Caio Enobarbo a 12.02.2014 às 17:58

Somos dois!
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De homem sem blogue a 03.02.2014 às 11:30

O primeiro caso choca-me mas não me surpreende tendo em conta o historial dele. E fez-me pensar em algo que irei escrever.

Quando ao Woody Allen. Não sou um grande fã. Gosto de algumas coisas dele mas não sou louco por ele. A carta é mesmo muito forte. E, mais uma vez, não me surpreendem as acusações.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De Pronta e Vestida a 03.02.2014 às 11:31

Meu Deus, que horror. Nem consigo imaginar.
Mas nunca gostei muito de Woody Allen já por causa destas coisas.
Agora comporva-se

www.prontaevestida.com
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De Pronta e Vestida a 03.02.2014 às 11:32

*comprova-se

Quanto ao PSH, que perda!
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De VBuvvly a 03.02.2014 às 11:32

Subscrevo na integra!
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De Rosa Cueca a 03.02.2014 às 11:32

Nunca consegui "respeitar" viciados. Mas respeito o peso e significado do "vício".
Adorava o Hoffman como actor, hei-de continuar a adorar. Se era uma pessoa imperfeita, que erra descomunalmente? Claro que sim.
Na vida aprendemos a amar as pessoas além dos seus defeitos e erros. Infelizmente um drogado, mesmo quando limpo, terá sempre aquele peso de o ser. Não vai mudar, mesmo que as suas escolhas mudem. Pode escolher estar limpo, mas pode ter um momento de fraqueza e deitar tudo a perder. É triste.

Woody já levanta rumores que não nos chegam de agora. Torna-se muito complicado distinguir a pessoa da carreira, o espírito, do génio.
Para mim WA é magistral naquilo que faz. Se é uma boa pessoa? Se é correcto? Se é moral? Não consigo acreditar que seja. Não consigo também dizer que gosto menos das obras dele por isso.
Passou a linha do ortodoxo, do aceitável, do expectável e colou-se a um rótulo de tarado imundo e amoral.

Nem sempre compreendemos as pessoas ou o porquê de fazerem o que fazem, simplesmente reservamo-nos ao direito de não as "desculpar" por isso.
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De adelaide a 03.02.2014 às 17:27

Há situações em que .respeito é uma forma de compaixão..Choca-me que se fale assim de quem acaba demorrer vítima de um trágico vício. Não se pede a ningém que seja conivente, mas. no mínimo, tenhamos compaixão. Quem somos nós para o julgar?
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De Rosa Cueca a 03.02.2014 às 18:34

Adelaide, penso que não tenha compreendido o que disse (ou eu não me fiz entender convenientemente).

O respeito pelo "peso" do vício, não significa um desrespeito pelo viciado.
Mas sim uma compreensão de que, uma vez viciado, irá sê-lo sempre. Mesmo quando as suas escolhas forem resistir a esse vício.
É como dizer que estar limpo é uma batalha que se trava sempre, não uma "cura" verdadeira. Infelizmente. Porque na prática é preciso um esforço muito grande para não recair.
Como eu disse, as pessoas erram e fazem escolhas que por vezes não conseguimos compreender (como esta, que deita a perder a própria vida e deixa no mundo a mulher e os filhos), mas tal não significa que deixemos de gostar/admirar a pessoa.
Todos os anos perdemos muitas pessoas para a droga, algumas figuras públicas, dizer que se acha triste partirem desta forma não é um desrespeito, mas sim isso mesmo: triste. Porque tinham tanto para dar e não tiveram essa hipótese.
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De Sara a 03.02.2014 às 11:49

O facto do woody allen se ter casado com a filha adoptiva da esposa sempre me causou alguma estranheza. Daí, quando vi a carta da filha, pareceu-me certo que ele seria culpado. No entanto, quando li o artigo (cujo link aqui deixo) perdi muitas certezas. A verdade é que a história está muito mal contada e tem muitas falhas.

http://www.thedailybeast.com/articles/2014/01/27/the-woody-allen-allegations-not-so-fast.html
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De Liliana Onofre a 03.02.2014 às 12:03

Arrumadinho, aconselho a ler este artigo. http://www.thedailybeast.com/articles/2014/01/27/the-woody-allen-allegations-not-so-fast.html

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De O Arrumadinho a 03.02.2014 às 12:15

Olá Liliana. Eu li o artigo ontem. Parece-me demasiado tendencioso, por razões óbvias. E torna-se pouco credível quando o próprio autor assume que não sabe o que aconteceu, e acredita que Dylan ache mesmo que o pai abusou dela, mas que, para ele, aquilo é tudo da cabeça dela, e sugestionado pela mãe.
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De Ana a 08.02.2014 às 01:17

Tendencioso é baseando-nos num artigo que, ainda para mais, tem argumentos que não batem certo acharmos logo o "culpado" da história...
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De Inês a 03.02.2014 às 12:14

Olá Arrumadinho,

É verdade que uma acusação destas é uma acusação muito muito séria, e é ainda mais difícil acreditar que alguém poderia inventar algo tão horrível de uma pessoa. Ainda para mais uma pessoa que começou um relacionamento com uma rapariga de 18 anos.

No entanto, na altura as acusações surgiram no momento em que ele se estava a separar da Mia Farrow. E basicamente a Mia Farrow gravou a Dylan a contar que o Woody a violou e durante essa gravação existem uma série de interrupções em que a cassete pára e depois volta a gravar. Isto para mim é muito duvidoso. É muito fácil uma mãe manipular uma filha... Em segundo lugar ao que aparenta a miúda foi vista por dois médicos na altura e ambos não encontraram sinais de violação.

Acho um pouco precipitado acusarmos já o Woody Allen. A justiça nos Estados Unidos costuma funcionar bem e o caso foi averiguado na altura. Não devemos esquecer também que ele deve ter semeado muitos ódios, tanto com a Mia Farrow como os seus filhos adoptivos.

Claro que pode ser tudo verdade e ele pode mesmo ter abusado da menina. Mas não podemos acusá-lo já e pronto.

Aqui segue um link a explicar melhor a situação:
http://www.thedailybeast.com/articles/2014/01/27/the-woody-allen-allegations-not-so-fast.html
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De Ana a 08.02.2014 às 01:18

Subscrevo!!!!
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De Helder Baptista a 03.02.2014 às 12:15

http://www.thedailybeast.com/articles/2014/01/27/the-woody-allen-allegations-not-so-fast.html

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