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Se as vidas e rotinas dos adultos mudaram radicalmente nos últimos 30 anos, as das crianças também, e se os problemas centrais na vida das pessoas nos anos 80 eram uns e hoje são outros, o mesmo se passa com os mais novos. Ontem li este artigo no "Público" sobre os maiores dramas, medos e frustrações na vida dos miúdos em 1986 e, em comparação, os dos dias de hoje. Nos anos 80, as grandes preocupações eram o abuso sexual, as agressões físicas, os problemas familiares e a gravidez. Hoje, e de acordo com uma linha de ajuda a crianças e jovens britânica, a ChildLine, são a baixa auto-estima, os problemas familiares, a infelicidade, o bullying e cyberbullying e a auto-mutilação.

 

Há cinco anos, escrevi aqui este texto que falava mais ou menos sobre esta realidade relativamente recente: a necessidade de criar crianças felizes. Muito mais do que educar o meu filho para ele ser um génio, um artista, um miúdo supercompetitivo, quero educá-lo para que seja uma criança feliz. Essa é a minha prioridade. Este estudo vem demonstrar que isto pode ser, de facto, importante para que ele já parta à frente de milhares de outras crianças, que vivem infelizes, tristes, e muitas vezes por razões ligadas a esta nova realidade altamente tecnológica centrada na internet, nas redes sociais, nos YouTubes.

 

Vejo isso pelo meu filho mais velho, de 9 anos. Há dias, deixei que ele criasse uma página no YouTube, para poder partilhar os seus vídeos de MineCraft, o jogo preferido dele. Achei que ia ficar feliz a fazer aquilo e a imitar os youtubers de que tanto gosta. Mas enganei-me. Percebi isso quando, ontem, me disse, com alguma tristeza, que ainda só cinco pessoas tinham subscrito a página dele. Foi uma coisa que não medi, em que não pensei. Se permiti que tivesse uma página de YouTube (e não de Facebook ou de Instagram) foi precisamente porque achei que no YouTube, em primeiro lugar, não teria de divulgar a identidade própria (ele não dá a cara nos vídeos e o nome dele é um nickname) mas depois porque não haveria a métrica dos números para o frustrar: os likes, os seguidores, os fãs. Mas há, e isso é muito relevante para os miúdos. Naturalmente que falei tranquilamente com ele sobre o assunto, expliquei-lhe que isso não é importante, que o fundamental é ele divertir-se a fazer aquilo e que isso é que importa. Mas nem sempre a conversa é suficiente, e tenho a certeza de que o assunto não morreu ali.

 

Por outro lado também acho importante que as pessoas, e as crianças em particular, aprendam a conhecer a tristeza, os momentos menos felizes, porque acredito que isso ajuda a construir caráter, que prepara para a vida como ela vai efetivamente ser. Por muito que gostássemos que acontecesse, nunca conseguiremos proteger os nossos filhos de tudo, a vida inteira — eles vão mesmo ter de dar muitas cabeçadas na parede, vão sofrer com muitas coisas, e se já tiverem pelo menos uma noção do que é a tristeza, melhor. Também já falei sobre isso há uns tempos neste outro texto

 

No post de que falei mais lá em acima, escrevi sobre a "Mãe Tigre", uma senhora que defende que os pais devem educar os filhos para a excelência, para serem perfeitos, os melhores em tudo, os número 1, que devem partir à frente de todos os outros em tudo o que fazem, que devem ser os melhores alunos, os melhores na música, no desporto, que devem falar logo imensas línguas, aprender a ler e a escrever aos três anos, enfim, uma tirania pegada, mas que já tem milhares de seguidores no mundo inteiro. Hoje, e passados cinco anos, não retiraria uma vírgula ao que escrevi. Continuo a achar que o melhor modelo educativo para os nossos filhos é o do amor, o do equilíbrio e o da felicidade. Mais do que qualquer outra coisa, um pai deve preocupar-se em que o seu filho seja feliz e tenha as ferramentas de que necessitará ao longo da vida. A mais importante de todas é o caráter, e isso não se constrói em salas de conservatórios de música, em escolas de inglês, em lições privadas de leitura e escrita para miúdos de três anos, constrói-se em casa, todos os dias, a todas as horas. E é nisso que acredito, é isso que acredito que vai fazer dos nossos filhos melhores pessoas. Mais do que de génios, o mundo precisa de boas pessoas.

 

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publicado às 10:35


15 comentários

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De A Closet a 10.01.2016 às 12:01

Apesar de ainda não ter filhos, penso que o mais importante é que eles sejam felizes. Não que eles sejam os melhores ou os que têm as melhores roupas ou os melhores jogos. Para mim, o essencial é que sejam felizes o resto virá certamente.

http://avidaeueocloset.blogspot.pt/
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De Sofia F. a 10.01.2016 às 12:02

Subscrevo completamente o teu texto...
Apenas acrescento a ideia de que as crianças precisam de tempo para serem... Crianças!
Sim, os estímulos intelectuais, desportivos e artísticos são importantes mas não substituem o tempo para experimentar, para brincar, para ser criança...
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De Carla Marques a 10.01.2016 às 12:11

Concordo plenamente. Nem vejo como pode ser de outra forma.
Está mais do que visto que uma pessoa bem-sucedida profissionalmente, ou muito rica ou muito famosa não é, necessariamente feliz, nem infeliz.
Neste momento prefiro ensinar a minha filha a lidar com a frustração do que ensiná-la a ler ou a falar mais.
Quero, em primeiro lugar, que ela se sinta amada, segura e confiante com as suas escolhas e com a pessoa que ela é (bem... tem só 21 meses mas temos que começar por algum lado).
Quero que ela goste apaixonadamente do que escolher fazer e que coloque essa paixão acima de qualquer compensação financeira porque só assim poderá ser realmente feliz. Quero que ela estabeleça as suas linhas de ação sempre com base nos seus valores e pensamentos e nunca por comparação com outros.
Esse é o meu plano. vamos ver se na prática funciona tão bem.
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De Anónimo a 10.01.2016 às 13:51

Muito bem escrito. Beijinhos aí para casa. Su
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De Teresa a 10.01.2016 às 14:41

Que foto Maravilhosa!!!!
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De Rui Soares a 10.01.2016 às 15:33

Nem sou de comentar posts mas, a última frase deste merece!
O mundo está cada vez mais cheio de fakes. Pessoas que se preocupam mais com a quantidade de likes e com quem mexe no queijo delas do que com o conteúdo. O seu conteúdo.
Boas pessoas precisam-se. URGENTE.
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De Uma mulher apaixonada a 11.01.2016 às 00:29

Boa noite,

Concordo completamente com tudo o que escreveu!
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De Ana Lopes a 11.01.2016 às 10:56

Gostei muito do texto. E é verdade, é preciso criar pessoas felizes. Nos últimos 15 anos, vivemos na "frenética" da tecnologia. O importante, era estarmos sempre presentes, com telemóveis, com internet, com redes sociais. Termos tudo e mais uma porcaria, para sermos felizes. Termos televisão com cabo, e máquinas de café portáteis, para não perdermos tempo a conviver e a falar com os outros.
Hoje, passada essa "overdose", chegamos à conclusão que, talvez, este não seja o melhor caminho.
Vivemos todos no mesmo mundo, temos todos problemas, e só unidos, e a respeitarmo-nos a nós e ao planeta, é que construímos um mundo melhor e mais saudável.
Para podermos viver, para sermos felizes. Só um sorriso pode inspirar outro sorriso.
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De Noc@s a 11.01.2016 às 11:59

"...o mundo precisa de boas pessoas." e acrescento URGENTEMENTE!!!
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De Joana a 11.01.2016 às 12:25

Concordo totalmente com este texto. Penso que o principal papel dos pais é transmitir aos filhos as chamadas "soft-skills": auto-confiança, auto-conhecimento, resiliência, capacidade para lidar com a frustração, sociabilidade, empatia, determinação, preserverança, etc.

Se tem a melhor nota a tudo, se é bilingue desde a creche, se toca piano como o Mozart aos 5 anos... isso, sinceramente, é-me indiferente.

Ainda não tenho filhos, mas quero engravidar este ano e já penso muito nestas questões. A grande parte dos meus colegas são mulheres nos 40's, já com filhos, e têm sido para mim um exemplo a não seguir. São pessoas de tal modo enredadas numa vida de encargos e obrigações, que assumiram como sendo o único caminho a seguir e aquilo que têm de fazer pelos filhos e pela sua vida, que no meio disso tudo se esqueceram de ser felizes. Só falam do empréstimo da casa que têm de pagar, do seguro de saúde, da mensalidade do colégio privado onde puseram os filhos, das actividades extra em que eles andam, nos psicólogos e explicadores em que alguns também já andam, nas deslocações de carro e tempos no trânsito que têm de fazer para realizar esta rotina toda, etc. Só se queixam de tudo. Vivem amarguradas e frustradas com as escolhas que tomaram, obcecam imenso com os filhos (estão sempre a monitorizar quando têm testes, o que deram hoje nas aulas, o que os professores andam a fazer, qual é o menu da cantina hoje e se ele o pode comer, etc), nunca estão bem com nada. Até quando têm férias (3 semanas no Algarve, todos os anos), regressam a queixar-se que foi pouco tempo, que havia muita gente, que a água estava fria, que é uma trabalheira levar as tralhas dos miudos para a praia, etc.

Depois, uma pessoa foge um bocado a este estereótipo (meu caso), apareço sempre alegre e positiva no trabalho, tenho uma relação estável, duradoura e feliz, viajo com frequência, não uso carro no dia-a-dia, quero ter filhos e manter o meu estilo de vida simples, inscrevê-los numa escola pública, viajar com eles, passar tempo com eles, mais que enchê-los de actividades, que eles sejam felizes acima de tudo e olham para mim como se fosse um ET. Ainda tentam mandar as bocas de "ah, dizes/fazes isso porque não tens filhos, aproveita, quando os tiveres vais ver", como se o que lhes "aconteceu" à vida quando tiveram filhos fosse o que eu devesse tomar como exemplo, quando eles, já antes de ter filhos, não levavam a vida que eu levo, não priorizavam aquilo que para mim é importante, nem faziam as escolhas que eu já faço. Por isso, obviamente, não são quem eu tomarei como exemplo nesse campo. Acho triste as pessoas verem os filhos desta forma, levarem a vida como se de um encargo se tratasse, fazerem escolhas parece que só "porque sim", porque toda a gente faz igual, sem sequer se questionarem se isso faz algum sentido.
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De Ana Mesquita a 19.01.2016 às 00:47

Tão verdade. Tenho 44 e um filho, e à minha volta as mães são quase todas assim, parece um gang. Ou pertences ou estás fora. E ouves e pensas:"Devo ser mesmo uma péssima mãe, não faço nem metade destes "sacrifícios" pelo meu filho". Acho que deve estudar sozinho, nunca foi a todas as festas de aniversário, senão simplesmente não tínhamos fins de semana. E ficar horas as conversarem à porta do colégio, saberem o nome de todos os professores, saberem o programa escolar melhor que os professores, mil e uma actividades, e por aí fora.
Enfim, simplesmente não sei ser assim. Adoro o meu filho, e quero que ele saiba fazer as suas escolhas, e tenha tempo de ser criança. E feliz.

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