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19
Jan15

Não vão chatear o Camões

por O Arrumadinho

Há dias que acompanho com interesse, e, admito, estupefação, a guerra "jornalística" entre o "Correio da Manhã" e o Global Media Group (antiga Controlinveste), sob o pretexto de eventuais "notícias" sobre José Sócrates. Hoje, esta batalha atingiu um homem que conheço muito bem, com quem já trabalhei e que admiro pessoal e profissionalmente, Afonso Camões, diretor do "Jornal de Notícias".

De forma muito resumida, escreve o "Correio da Manhã" que Afonso Camões avisou José Sócrates de que estava a ser investigado e que Camões chegou à liderança do "Notícias" por indicação do antigo primeiro-ministro.

 

Afonso Camões defendeu-se num extenso editorial confirmando que sabia o que se dizia no meio jornalístico — que Sócrates estava a ser investigado, e que mais dia menos dia poderia ser detido — mas que essas informações lhe foram transmitidas por um jornalista do grupo do "Correio da Manhã" (a Cofina), e que quem passou essas informações ao jornal foram os procuradores ligados à investigação.

Há três pontos que merecem ser analisados:

1. Vou fazer um exercício muito simples: trocar de lugar com Afonso Camões. Eu posso ser jornalista, posso ser muito íntegro, o melhor profissional do mundo, mas não coloco a profissão à frente de tudo. Primeiro está a minha família, depois estão os meus amigos, só depois vem o meu trabalho. É essa a minha ordem de prioriodades. Logo, se eu soubesse que uma pessoa que é minha amiga há 40 anos estava a ser investigada por qualquer coisa podem ter a certeza absoluta que lhe contaria. Não sei se Afonso Camões contou ou não a Sócrates o que lhe foi dito por um jornalista do "Correio da Manhã", mas sei bem que, no lugar dele, era o que eu teria feito. É profissionalmente condenável, sim, até pode ser, mas para mim há valores mais importantes, como o da amizade e da lealdade para com os meus amigos.

2. O "Correio da Manhã" tece toda uma teia com este assunto para criar a ideia de que José Sócrates queria controlar em absoluto a Controlinveste, e usa este assunto Camões como mais uma peça deste puzzle. Acontece, no entanto, que Afonso Camões é um enorme profissional, um excelente homem e um jornalista admirado por quase toda a gente. Se está à frente do "JN" é por tudo isto, por um passado de mais de 30 anos de carreira, com patrões de todas as cores políticas. Em Portugal, no entanto, o mérito nunca é um fator válido para quem está no topo. Se as pessoas chegam lá acima é porque são trafulhas, ou é por cunhas, ou é porque são boys atrás de um job, nunca, mas mesmo nunca é porque simplesmente são bons. Camões pode ser amigo de Sócrates, até podia ser irmão — interessa-me pouco —, mas é sobretudo um ótimo profissional, e é isso que deve ser fator de avaliação do seu trabalho.

3. O que se está a passar no atual panorama jornalístico português devia ser usado como caso de estudo nas universidades com o curso de comunicação social. A mistura da opinião com a notícia, o uso de informações com fontes duvidosas, a condenação pública, a violação permanente do segredo de justiça, a total parcialidade, a falta de isenção, a constante violação de vários artigos do código deontológico, da invasão da vida privada, da difamação, tudo em nome "dos leitores", tudo em nome "da verdade", tudo em nome "da transparência" é algo que não me surpreende mas que me preocupa. Espanta-me, sim, a total passividade de quem regula, de quem fiscaliza, de quem deveria ter a competência de olhar para estas coisas e dizer "alto", mas não faz rigorosamente nada. Devem estar demasiado ocupados a ler blogues de jornalistas para ver se há por ali indícios de publicidade. Provavelmente, vêm-me chatear porque eu escrevi que se estivesse no lugar de Afonso Camões também teria avisado um amigo. Venham, então.

 

CAMOES.jpeg

 

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publicado às 21:52


14 comentários

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De Ana a 20.01.2015 às 02:12

Gostava de ler o teu blog ... até hoje. Sou jornalista e uma coisa digo hoje fiquei envergonhada ao ler o editorial do Jn. Não coloco em causa a lealdade do Camões para com um amigo. Coloco em causa é como esse mesmo Camões tem imparcialidade para dirigir um jornal que dia após dia tem que falar nesse mesmo amigo. Basta veres que o Jn apenas volta a fazer manchete do Sócrates na semana em que o Camões sabia que a notícia das escutas estava para breve. E se tivesses acompanhando de perto o caso face oculta, se tivesses lido as escutas saberias que não é imaginação. O Sócrates realmente tentou controlar jornalistas e continuou a fazê-lo. E sinceramente tenho vergonha de ver o Jn a tentar camuflar a verdade com uma suposta guerra de leitores. O CM vende o dobro do Jn não precisa disso. Dou-te um conselho: lê a nota do conselho de redação do Jn e depois compara com o editorial do Camões. No primeiro documento dizem que é tudo mentira. No segundo que é verdade.
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De poteta a 20.01.2015 às 09:07

Antes pelo Contrário. Venho apoiar, eu faria o mesmo que tu!
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De homem sem blogue a 20.01.2015 às 11:22

Como dizes, perde-se tempo com algumas coisas que são pequenos acessórios no mundo jornalístico. Existem questões bem mais preocupantes às quais ninguém liga e que a maioria das pessoas não critica. Isto é triste e preocupante.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De Sofia Costa Lima a 20.01.2015 às 13:18

Não podia estar mais de acordo com o terceiro ponto, até porque me incluo no grupo de estudantes de jornalismo. Todos os dias vejo comentários sobre a forma como vários jornalistas exercem a profissão e é só comentários negativos. Esta crise de valores jornalísticos, se é que se pode chamar assim, é algo que vai acabar por afetar o futuro e as oportunidades que futuros jornalistas terão.
Neste caso concreto, tentando por-me também na pele de Afonso Camões, se soubesse que um amigo meu estava a ser investigado, também lhe diria...afinal a família e os amigos estão à frente do resto.
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De A Pipoca Arrumadinha a 20.01.2015 às 14:03

Uma animação!
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De FRANCISCA a 20.01.2015 às 14:41

Lembro me de ler aqui o Ricardo a atacar o Miguel Sousa Tavares (por quem não tenho grande apreço diga-se) por "defender" ou "não comentar", as verdades sobre a desgraca do BES. a> e dos seus cães grandes. Isso é criticavel para si, comentou em tom de crítica mesmo sendo de conhecimento público a amizade e laços familiares entre Sousa Tavares e a família BES. a> . Mas já não é criticavel o Sr Camões avisar o Sócrates, dar-lhe informações privilegiadas, porque são amigos, e neste caso a amizade já está acima de tudo... Enfim! A imparcialidade parece também não existir em si, tal como não existe em nenhum jornalista ou jornal deste país. Eu como leitora apenas me remeto á incredulidade, perante tanta falsa moral.
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De O Arrumadinho a 10.02.2015 às 09:07

Podia tentar rebater a sua argumentação de várias formas. Mas se calhar a mais eficaz é mesmo colar aqui a parte do texto que escrevi sobre Miguel Sousa Tavares e o BES. Só para que perceba que, às vezes, uma simples pesquisa no Google nos pode reavivar memórias sobre as quais temos muitas certezas, mas, afinal, são o contrário disso. Cá vai.
"Mas o facto de Miguel Sousa Tavares não falar do BES e de Ricardo Salgadao dele um escroque? Um mau comentador? É um erro ele não abordar este assunto e não falar do seu compadre? Não. Para mim não é. Pela relação familiar que tem com Ricardo Salgado, Miguel Sousa Tavares fica automaticamente limitado nas opiniões que pode dar sobre este assunto. Se disser mal do banqueiro, então, pode estar a criar sérios problemas familiares (para si, para a filha, para o genro, etc). Se disser bem de Ricardo Salgado, cai-lhe tudo em cima porque está a favorecer um familiar.
Qual é a solução mais lógica, e a única de bom senso? Não falar. Não dizer nada. É exactamente o que eu faria no lugar dele, e é, seguramente, o que 99 por cento das pessoas fariam no lugar dele.
Não acho a atitude de Sousa Tavares condenável, nem sequer acho que haja qualquer coisa de imoral no facto de ele não falar de assuntos relacionados com o BES. Acho, até, preferível que assim o seja, já que se falasse eu ficaria sempre a pensar se ele não teria qualquer interesse familiar nas coisas que estaria a dizer. Não falando, acho apenas que se está a proteger, o que é natural".
Pode ler o post na íntegra aqui: http://oarrumadinho.sapo.pt/149176.html
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De FRANCISCA a 18.02.2015 às 01:29

Olá Ricardo, realmente falei cedo demais e peço desculpa pela falha. Realmente não criticou o Miguel Sousa Tavares e mais uma vez nesse post defendeu o que não considero ter muita defesa. Acredito na profissão, acredito em pessoas sérias. E tal como não concordo com violação do segredo de justiça, não concordo com violação á profissão. O acto de dividir informação privilegiada para benefício do primo ou do amigo não é correcta. Entre a profissão e a amizade deve existir uma linha. Tal como o m.s.t . deveria perceber que se torna suspeito a comentar várias questões da actualidade do país, devido ao facto de se calar em relação ao caso BES , porque se sente de rabo preso. Com que moral fala sobre determinadas questões, quando sobre outras se cala por interesse? Tal como um jornalista que dá informação privilegiada ao amigo (mais uma vez obviamente por interesse, se o Ricardo quer acreditar que se trata de uma grande amizade ok, não é essa a a questão para mim) deixa de ser visto ou lido com a legitimidade que qualquer jornalista deveria ter. Um médico não deve também andar a falar do problema do seu doente mesmo que a esposa do doente seja a sua melhor amiga. Temos que ser sérios. Desculpe mas é a minha opinião.
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De Nelito a 20.01.2015 às 15:03

Só vou comentar o ponto 1, com o qual discordo.
Na tua linha de pensamento, a amizade é um fator abonatório sobre quem avisa o outro que este está a ser investigado. Mas é sempre condenável.
Também temos de perceber que, apesar de termos total confiança no amigo, não o conhecemos na sua plenitude. E esse amigo pode ter tomado acções contra a lei, que não afetam diretamente a amizade, pelos quais é investigado pela justiça. Ao fazer essa inconfidência arrisca-se a ser conivente e ajudar um potencial criminoso.
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De Ana a 21.01.2015 às 09:59

Então e a liberdade de expressão? lol
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De Anónimo a 21.01.2015 às 22:42

Se ia avisar um amigo que cometeu um crime estaria a ser cunplice
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De Miguel a 28.01.2015 às 04:53

Percebo a sua ideia, até que leio queixar-se do segredo de justiça. Sócrates ser avisado que está a ser investigado não há problema, mas depois já interessa o segredo de justiça.

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