Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


22
Jan14

Tive sentimentos muito contraditórios quando vi as duas reportagens que a SIC exibiu, ontem e hoje, com ex-jogadores de futebol que vivem agora com grandes dificuldades financeiras. Ontem, foi o caso de Jorge Cadete, que jogou no Sporting, no Benfica, na Selecção Nacional e em clubes estrangeiros, como o Celtic e o Celta de Vigo, hoje foi o caso de António Veloso, que esteve no Benfica entre 1980 e 1995.

 

Por um lado, é impossível não ficar comovido com a vida daqueles homens, que tiveram tudo, que foram estrelas, ídolos de multidões, e hoje vivem do apoio dos pais, no caso de Cadete, e de duas irmãs, no caso de Veloso. São homens novos — o Cadete tem 45 e o Veloso 56 —, ou seja, têm pela frente mais 30 ou 40 anos de vida, sem reforma, sem rendimentos. Mas por outro lado, duvido que alguém não se questione sobre onde foi parar todo o dinheiro que eles ganharam em 15 anos de carreira, quase sempre com rendimentos muitíssimo superiores aos das pessoas normais. As justificações apresentadas nas duas reportagens são claramente insuficientes. No caso de Cadete, dois divórcios e um investimento errado em dois cabeleireiros não podem justificar que um homem que ganhou, em média, 25 mil euros por mês durante 10 ou 15 anos, fique a depender dos pais para sobreviver. Já no caso de Veloso, também com salários nesta ordem, e que diz na reportagem ter sido sempre muito poupadinho, não se compreende como é que com um único negócio errado, numa empresa de publicidade, lhe consome todo o dinheiro que ganhou ao longo da carreira.

 

Mas estes dois casos até me parecem muito diferentes, porque os dois jogadores são totalmente diferentes. Se Veloso era um miúdo humilde de São João da Madeira, que trabalhava desde os 11 anos para ajudar os pais, e sempre levou uma vida pacata, sem grandes exibicionismos, já Cadete, que também não nasceu rico, tinha muito mais pinta de Playboy, sempre com grandes carros, rodeado de mulheres bonitas e muitas vezes ligado a histórias de noitadas. Ou seja, acho mais normal que Cadete tenha espatifado muito dinheiro em boa vida do que Veloso, que sempre teve aquele ar de homem de família e pai responsável (a reportagem mostra que afinal não, e que ele teve um filho fora do casamento, que terá estado na base do afastamento da actual mulher e dos dois filhos, Miguel e Raquel).

 

Também não me deixo comover com o argumento de que antigamente os jogadores de futebol não ganham o que se ganha hoje, e que era muito mais difícil poupar. Claro que ganhavam menos, mas a vida também não custava o que custa hoje. Os jogadores podiam ganhar 25 mil euros, mas um apartamento de luxo no centro de Lisboa custava 150 mil, e uma vivenda com piscina em Cascais custaria 250 mil. Ou seja, custava tanto a um jogador de futebol da altura investir em imobiliário como custa hoje aos craques que ganham bastante melhor. Os meus pais, que nunca foram milionários, e que nunca tiveram rendimentos, sequer, perto dos de Veloso ou Cadete, conseguiram comprar quatro casas, e hoje que estão reformados, e com reformas baixas, têm essa segurança, essa almofada, conseguida à custa de muito esforço e de sacrifícios, coisas que estes jogadores de futebol não souberam ou não quiseram fazer.

 

Há depois outra questão: os jogadores de futebol são, por norma, pessoas com pouca instrução. Cadete tinha o oitavo ano, Veloso a quarta classe. É normal que estas pessoas dependam de outras para a melhor condução dos investimentos. Acontece que muitas vezes são mal aconselhados e as coisas dão para o torto — o que aconteceu em ambos os casos. E aí não os posso culpar. Acontece-lhes como pouco acontecer a qualquer outra pessoa.

 

No caso do Veloso, e ainda antes de ver a reportagem, havia uma coisa que me fazia confusão: como é que este homem passa dificuldades se tem um filho que ganha, seguramente, uns 120 ou 150 mil euros por mês? Percebi, depois, que Miguel e Veloso não se falam há uns anos, um corte de relações que estará ligado à revelação do tal filho que Veloso teve fora do casamento, e que é hoje um ano mais novo que Miguel. Neste caso, e não conhecendo todos os contornos do caso, não posso julgar a atitude de Miguel. Acho que só ele saberá porque não ajuda o pai, se bem que, tenho a certeza, ninguém sofrerá mais do que ele por estar a deixar o pai nesta situação. É muito fácil julgar os mais fortes e colocarmo-nos ao lado dos mais fracos, mas muitas vezes só o fazemos por piedade, porque se soubessemos todos toda a verdade, se calhar, teríamos outra posição.

 

Nos próximos dois dias a SIC irá mostrar mais duas reportagens, com dois outros futebolistas que vivem da caridade. Lá estarei no sofá a assistir, e a pensar nas mesmas coisas, na tristeza que é cair do alto para a lama, e na inconsciência daqueles homens que tinham tudo para ter uma reforma dourada e têm de mendigar por ajuda, coisa que ninguém merece. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:17


39 comentários

Sem imagem de perfil

De Brown Eyes a 22.01.2014 às 22:58

Também estou a seguir as reportagens e sinto exactamente o mesmo; uma dualidade de pensamentos, mas o que ressalvo é que ambos os depoimentos me fizeram imensa pena; sem arrogâncias, sem rodeios, assumir a queda não deve ser fácil.

BE
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.01.2014 às 10:03

Não vi as reportagens, mas penso exactamente o mesmo.
Aliás, falo nisso muitas vezes e mostro ao meu filho, que está na idade da pura inocência - 11 anos, que tem a ilusão de vir a ser um grande jogador de futebol apenas porque lhe dizem que é um "craque".
Vou tentar ver com ele estas reportagens, para ele perceber como são as coisas.
Ele é optimo na escola, mas mesmo assim pensa que não lhe fará muita falta, porque, lá está, pensa na sua inocência que é fácil ser um grande jogador e acima de tudo, manter esse nível...
Tenho pena de cortar estas ilusões, mas por vezes acho que é mesmo isso que falta a estes miudos (que depois crescem) e pensam que o dinheiro e a fama são eternos.
Sem imagem de perfil

De Olga teixeira a 22.01.2014 às 23:10

Boa noite ! Tenho exatamente a tua opinião , se por um lado é penoso ver alguém k já teve tudo necessitar quase de mendigar ajuda da família por outro estas histórias não vão exatamente ao fundo da questão. Não fico indiferente mas não se justifica não terem pensado no futuro.
Sem imagem de perfil

De ana sa a 22.01.2014 às 23:16

O que mais me incomoda, é achar que com estas reportagens, estas pessoas acham q deviam ser mantidas pela sociedade
Sem imagem de perfil

De Isabel a 23.01.2014 às 12:23

Ora pois! E os dois têm muito boa idade para trabalhar, não tem habilitações para mais vão apra as obras, emigrem, Pena!!?
Sem imagem de perfil

De JP a 23.01.2014 às 13:10

Desculpe mas não sei onde viu isso. Nem na reportagem do Cadete (a do Veloso não vi) nem no post, nem nos comentários, ninguém achou que eles deviam ser "sustentados pela sociedade".

Outra coisa diferente, na miha opinião, é a questão do Rendimento Mínimo.
Eu considero que as pessoas (estas ou outras) não devem ser deixadas na pobreza extrema em nenhuma situação e por isso devem ter um rendimento mínimo "atribído pela sociedade" que lhes permita manter a humanidade e o mínimo de sobrevivência.

Não se trata de subsidiar um estilo de vida mas assegurar direitos humanos básicos (como alimentação, habitação e higiene).

Cumps
JP
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.01.2014 às 23:46

Procura a história sobre o problema do Veloso com o filho Miguel. Verás que os problemas não vieram apenas do outro filho que o Veloso teve mas sim de "abusos de confiança" (não sei se será o termo correto, após analisares a história, que é pública, irás tirar as tuas conclusões sobre isso) por parte do Veloso. Infelizmente por essa história, não consegui sentir tanta "pena" do Veloso como do Cadete. Até porque o Cadete me mostrou mais iniciativa e vontade de se tornar autónomo do que o Veloso, que parece estar mais a "deixar-se ir".
É uma história triste, sem dúvida, e mostra bem as voltas que a vida dá...
Sem imagem de perfil

De Margarida a 22.01.2014 às 23:55

sinceramente, nao consigo ter muita 'pena' destes senhores. achavam q iam viver sempre do futebol? enquanto tiveram, sempre esbanjaram tal como estes q vemos agr, esbanjam dinheiro em tudo...e depois mais tarde e isto q se ve. a maior parte deles nem o 12ºano tem, mal sabem construir uma frase, depois vêm-se com tanto, em vez de pouparem nao, gastam em carros, casas de luxo, brincos de diamantes e afins. e um pouco trsite. deveriam ter um pouca mais de consciencia, visto q vinham de familias pobres, deviam saber dar valor ao dinheiro. agr aos 50's e q se lembram q a fama nao dura sempre. é triste, enfim..mas e mt pior aqueles q como os meus pais e os meus pais andamuma vida inteira a trabalhar e a descontar e depois qnd chegam a idade da reforma ganham uma miseria tendo poupadi uma vida inteira..
Sem imagem de perfil

De Sara V. a 23.01.2014 às 00:00

A propósito do Veloso, fica aqui um pequeno excerto:

" O "menino rico " como me chamou meu pai , sempre o ajudou , o carro que ele tem neste momento quem o ajudou a comprar foi o seu filho ... O "menino rico" o ajudou a pagar dividas que ele tinha.... O que mais MAGOA , e ver um pai não assumir os seus erros e culpar todos os outros dos seus erros e não dar valor a NADA nem aquilo que e mais importante da VIDA"

http://www.ojogo.pt/Futebol/interior.aspx?content_id=3167068
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.01.2014 às 00:33

Veloso nao fala com o pai porque quando viu a conta bancaria dele viu que o pai o andava a roubar, inclusive dinheiro que o veloso mandava para a familia...

Veloso receber cerca de 4 milhoes ano o que da bem mais do que esses 150 mil euros mes.

Recebia 120 contos e diz o toni que os ordenados de antigamente nao sao como de agora. 120 contos sao 600 euros, quantas pessoas nao recebem isso e menos por mes ? ele é 30 anos recebia isso....


Ass. Toze
Sem imagem de perfil

De Maria a 23.01.2014 às 08:46

Tenho muita pena que o senhor Veloso tenha vindo a público transmitir esta imagem de coitadinho, levando as pessoas a pensar que o Miguel não está a agir correctamente, omitindo tudo o que ele fez ao filho...é preciso muita falta de carácter para ter coragem se se prestar a este papel agora. Tenho pena também do Miguel, da mãe e da irmã, pois devem sentir uma revolta inimaginável para com este homem com h muito pequenino..
Sem imagem de perfil

De Patrícia a 23.01.2014 às 12:16

Eu não conheço toda a história que envolve Veloso e os filhos. Atrevo-me a dizer que só os intervenientes a conhecem, logo, qualquer comentário sobre o que esteve na origem do desentendimento é pura especulação.
Ainda assim, e fazendo um pouco de advogada do diabo, não me pareceu, pela reportagem de ontem, que Veloso tenha atirado as culpas para o filho. Houve até uma frase que me ficou na memória, qualquer coisa como "ele terá as suas razões, eu as minhas". E não será assim em todas as histórias em que duas (ou mais) pessoas se desentendem? Há sempre, no mínimo, duas versões e não é justo que se parta do princípio que apenas um lado terá razão.
Sem imagem de perfil

De Pronta e Vestida a 23.01.2014 às 09:55

Também sinto pena, pena da situação em que estão agora e pena de não terem conseguido ter melhores decisões, quando estavam em grande.

Acho que hoje em dia as equipas ajudam mais os jogadores a gerir o seu dinheiro. Se não o fazem, deveriam fazê-lo.

www.prontaevestida.com
Sem imagem de perfil

De Sofia Costa a 23.01.2014 às 10:14

Concordo inteiramente com o que disse Ricardo. Estas pessoas viveram bem acima da média durante anos e foram gastando tudo. Talvez enganados por outros ou talvez sem consciência do futuro mas a verdade é que deviam ter pensado melhor nos passos que davam, até nos investimentos. Agora vivem nesta situação deplorável de dependerem de alguém, que é muito triste!!


sonhoseparvoices.blogspot.pt/
Sem imagem de perfil

De Gizmo a 23.01.2014 às 23:11

Boas, gostava só de dar os parabéns e de convidar todos a visitarem:

http://tralhasvarias.blogspot.com

Divirtam-se!

Comentar post


Pág. 1/4




A minha segunda casa


Sigam-me


Os meus livros


Sigam-me no SAPO

foto do autor


Coisas mais antigas

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D




Google Analytics



SAPO Blogs