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Hoje, quando escrevi o texto sobre os posts comerciais, ainda não estava a par da notícia dos despedimentos na Controlinveste. Mas dizia uma coisa que acaba por ir ao encontro daquilo que se passou naquele grupo, onde já trabalhei, e que se está a passar em quase todos os outros ligados à minha área, a comunicação, que é a necessidade de uma reinvenção dos modelos tradicionais de negócio.

 

Ainda antes de falar disso, queria falar do lado humano do que hoje se passou no grupo do DN. Um despedimento colectivo de 140 pessoas afecta inevitavelmente grandes profissionais. É impossível não afectar. Tenho muitos amigos na Controlinveste, conheço bastantes jornalistas do grupo, já trabalhei com vários, e sei que alguns dos que integram esta lista são muito bons. Só que numa altura como estas, o ser-se bom ou menos bom é um bocadinho secundário, porque o que está em causa são empregos, sustentos, vidas de pessoas e famílias, e por mais esquisito que possa parecer, até é dos menos brilhantes que tenho mais pena, porque esses, na atual conjuntura, terão gigantescas dificuldades em voltar a um mercado de trabalho lotado e em que a tendência é despedir, e não contratar.

 

 

Já passei por alguns processos parecidos ao longo da minha carreira. Aliás, com uma ou outra exceção, trabalhei durante anos e anos em publicações que viviam dificuldades financeiras e em que as conversas de corredor andavam muito à volta do "e se isto fechar?" ou "qualquer dia mandam não sei quantos para a rua". Em 2010, fiz parte do grupo de colaboradores que deixaram a Controlinveste, depois de uma reestruturação deste género. Nunca olhei para isso como um drama, mas como um desafio forçado que teria de enfrentar. A verdade é que no dia em que saí da Controlinveste recebi três telefonemas de pessoas a abrirem-me as portas da Cofina, o Bernardo Ribeiro, do Record, e o Miguel Pinheiro e o Gonçalo Bordalo Pinheiro, então na Sábado. Uma semana depois de ter assinado a rescisão de contrato estava a fazer a capa da Sábado com uma reportagem sobre o Rei Ghob. Um mês e dois dias depois assinava contrato com o i, onde fui editor-executivo durante seis meses, até ir para a Sábado.

 

Ou seja, eu sei o que estas pessoas estão a passar, e sei que vão ter de olhar para a frente e não para baixo, vão ter de se reinventar à força, cerrar os dentes e ir à luta com as armas que têm e com novas armas que serão obrigados a ter por via da formação pessoal e profissional. Nem todos o vão conseguir, porque é sempre assim, há sempre os que conseguem e os que não conseguem. Ainda hoje sei de gente que saiu comigo da Controlinveste em 2010 e que não mais conseguiu emprego na área, mas a verdade é que não há alternativa, é preciso lutar quando nos tiram o tapete.

 

Hoje, quando escrevi o texto sobre os posts comerciais, falava na necessidade de podermos lutar pela criação do nosso próprio emprego. Para um jornalista, uma pessoa da área da comunicação, das letras, um blogue pode ser esse emprego, pode ser, pelo menos, uma fonte de rendimento que ajude a pagar algumas contas, ou, até, todas as contas. É preciso é que o blogue seja trabalhado de forma profissional. Algumas pessoas comentaram o meu texto dizendo que o blogue da minha mulher, A Pipoca Mais Doce, se tornou exclusivamente num blogue comercial. Não é verdade. Claro que tem muitos posts sobre produtos de beleza, roupa, sapatos, o que seja, mas isso sempre teve, podiam era ser apresentados de forma mais emotiva e menos profissional. Lembro-me, por exemplo, de quando o blogue dela passou a ter fotos tiradas por uma profissional várias pessoas terem protestado, porque o blogue parecia menos autêntico. Um disparate. Então um blogue de uma blogger profissional, que ainda por cima fala muito sobre moda, deve ter fotos amadoras, quando pode ter profissionais? Que sentido é que isso faz? O facto de o blogue ser profissional não quer apenas dizer que tem posts comerciais, quer sim dizer que a fasquia está muito mais elevada, e que tudo tem de ser mais competente: a imagem tem de ser melhor, os posts têm de ser mais frequentes e diversificados, a ligação ao leitor tem de se fazer de mais formas, as redes sociais têm de crescer, e tudo isso tem acontecido. Por mais que haja quem se queixe, os números falam por si. O blogue tem cada vez mais audiência, e isso significa apenas que há cada vez mais gente a procurá-lo, logo, o que está a ser feito está a ser bem feito.

 

Este é o modelo que todos os bloggers que querem seguir esta via profissional devem seguir. Não falo da vertente comercial, falo do empenho, do olhar para todos os lados e perceber o que as pessoas querem, o que os anunciantes querem, e qual a melhor forma de criar esse engagement, ou seja, aproximar leitores e marcas de forma natural. E é isso que eu vejo a Ana fazer. Claro que há ali muitos posts comerciais, mas ela consegue, num estilo muito próprio, falar de produtos de forma interessante, ligando-os sempre a histórias pessoais, tornando assim os textos mais criativos. Haverá quem discorde, quem pense de outra forma, mas a essas pessoas não posso fazer outra coisa que não mostrar números. Mais: mostrar-lhes outros grandes blogues americanos, espanhóis, franceses ou italianos, para que percebam que o modelo é esse, ou seja, não é a Ana que está errada ao segui-lo, são os outros, os que querem tornar os blogues rentáveis e não conseguem, que estão a fazer qualquer coisa de errado ou não têm o talento necessário para fazer o mesmo que ela faz.

 

Isto tudo para dizer que as pessoas ligadas à comunicação têm de olhar para a atual conjuntura e perceber que podem tentar criar o seu próprio modelo de negócio, sem terem de trabalhar para terceiros. Nos Estados Unidos, por exemplo, os jornalistas-bloggers já têm lugar nas conferências de imprensa da Casa Branca, já dão imensas notícias relevantes, já marcam muitas vezes a agenda do dia. Muitos, recusam ofertas de trabalho em jornais e revistas porque preferem ser livres e editores deles próprios, escrevendo nos seus espaços. Em Portugal, um jornalista que comece a ter grandes histórias no seu próprio blogue irá tornar-se relevante, importante, conhecido, e, com isso, conseguirá fazer-se notar. Para isso, precisa de três coisas: talento, muito trabalho e alguma sorte.

 

 

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publicado às 22:43


30 comentários

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De Anónimo a 12.06.2014 às 08:53

Compreendo tudo o que dizes Ricardo, mas a verdade é que sinto falta de espontaneidade no blog da Ana, e essa espontaneidade era na minha opinião o que chamou milhares e milhares de leitores, confesso que não gosto de ir ao blog e sentir que estou a folhear uma revista de avião. Aliás hoje em dia os blogs estão todos iguais, falam todos das mesmas marcas, claro que se sente que a Ana tenta criar um enredo a volta do produto, não apenas por fotos e preços e cores desse produto, como fazem outras/os blogers. Vou dar um exemplo prático, salvo erro no dia da mãe a Ana fez um post sobre a boticário, um texto na minha opinião tão bem escrito que nem parecia comercial, daqueles textos que nos fazem querer ir a loja e experimentar o produto. Depois fui aos outros blogs e TODOS falavam da boticário porque claro está a marca pagou para saírem textos no dia da mãe. Fiquei desiludida confesso. É isto que me mete medo a carneirada blogueira se calhar ainda somos um pais pequenino para todos querem sem blogers.
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De Luisa a 12.06.2014 às 16:58

Subscrevo inteiramente este comentário.
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De Alda Lopes Moreira a 13.06.2014 às 11:59

Concordo em absoluto...neste momento basta le rum blog que está tudo lido...ou então ir ao site da marca e pronto, nem vale a pena ler o blog...
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De imal a 13.06.2014 às 15:16

Só não subscrevo (com a devida vénia) a sua última frase. Daqui a pouco diz-se que foram os portugueses quem inventou blogs, blogosfera, blogs de moda e moda dos blogs. Em todo o mundo ( felizmente ou infelizmente ) há pessoas com blogues de moda e outras, sem. E há sempre blogs mais patetas do que outros.
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De homem sem blogue a 12.06.2014 às 10:54

Em relação ao blogue da Ana, pouco há a dizer. Os números falam por si. Se existem aqueles números é porque gostam. E as marcas vão atrás, como é lógico, de números do género. Depois, há quem goste, quem não goste e quem odeie, algo que não compreendo porque ninguém é obrigado a ler nada.

Em relação aos despedimentos. Já vivi isso de perto, já fui despedido antes de estar formado. E já vivi sem saber o dia de amanhã. Se ia ser despedido ou se a publicação eventualmente chegava ao fim. Um risco cada vez maior nos dias que correm.

Não digo isto para me fazer de forte mas não me assusta se tiver que mudar aquilo que faço. E gosto de estar preparado para não ser apanhado descalço. Gosto de ter um plano b. E tenho. Se um dia tiver um azar (algo cada vez mais provável) sei o que fazer no dia seguinte. E esta preparação é algo que aconselho a todas as pessoas, independentemente da área em que estão e da eventual segurança do seu posto.

E nesse sentido, acho que os jornalistas (e todos os outros profissionais) devem reinventar-se. Perceber o que podem fazer para se destacar e aplicarem-se em coisas onde podem ser bem sucedidos. Como dizes, é necessário talento, trabalho e muita sorte. Mas nenhuma destas coisas acontece enquanto estamos sentados num sofá à espera que venham ter connosco.

Por fim, e quanto a um blogue jornalístico, nada melhor do que ser o próprio editor, chefe de redacção e director.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt
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De Carla Marques a 12.06.2014 às 10:59

Cá está o meu post preferido deste blogue. Dá que pensar. De facto, nesta conjuntura, não é possível continuarmos passivos e dependentes de outros até para trabalhar. Temos que ser nós a criar o nosso próprio emprego.
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De Andreia a 12.06.2014 às 12:22

Eu compreendo que nos dias de hoje seja difícil recusar uma forma de ganhar dinheiro, até porque será ganho a fazer algo que se gosta, que no vosso caso e escrever. Há público para todos os gostos! Eu sou do público que gosta de ler textos sobre peripécias do dia a dia, política, desporto, relações pais e filhos (e no entanto ainda não sou mãe). Para mim essa e a beleza dos blogues e sigo vários! A minha 'paixão' começou pelo blogue da pipoca! Continuo a ir cuscar o blogue mas por vezes há posts que já nem abro e cada vez me identifico menos com os temas que ela escreve apesar de ser uma pessoa que também adora sapatos, malas e viagens! Tenho pena se os blogues se tornem como certos programas de tv ( secret stories e big brothers) e verdade que a audiência e muita, mas conteúdo não tem praticamente nenhum! Isto e apenas um comentário para tenham em atenção aos vossos leitores de sempre que provavelmente preferem outro tipo de conteúdos!
Apesar de ser assim um pouquinho do contra desejo o maior sucesso para si e para a sua esposa.
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De Sara Carvalho a 12.06.2014 às 15:02

Tens um ego enorme, uma vaidade que te esmaga o discernimento, um desfasamento da realidade que me perturba. Não és "o profissional", "o pai", "o marido", apesar de achares que sim. Antes de tudo és "um". Mau texto que revela pouca inteligência.
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De Joana a 12.06.2014 às 16:59

Tão verdade!
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De Anónimo a 12.06.2014 às 17:37

Tal e qual!
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De Alexandra a 13.06.2014 às 14:59

Não conheço o Ricardo nem a Ana, para além do que nos vão mostrando nos blogues, mas acredito que esta opinião esteja muito longe daquilo que eles efectivamente são. Faz-me muita espécie as pessoas seguirem os blogues e formarem estas ideias tão erradas, não conseguirem ver para além do imediato. Ou não têm perspicácia/inteligência ou são realmente muito más. Pessoalmente, por tudo o que tenho lido, parecem-me pessoas bastantes sensatas e nada arrogantes.
(E esta é a primeira vez que comento neste blogue, apesar de o ler com frequência. Não consegui ficar indiferente a tanta maleficência)
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De Isabel a 13.06.2014 às 09:03

Concordo. Teria usado talvez palavras menos fortes, mas concordo plenamente.

Isabel
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De Anónimo a 13.06.2014 às 17:39

Bingo!
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De A Pipoca Arrumadinha a 12.06.2014 às 15:18

Este País precisava de ter mais emprego para quem muito precisa, investir na saúde, por exemplo, isso seria o mais lógico, quanto aos blogs, cada um escreve o que bem entende, ainda que seja publicidade, estamos numa democracia e só visita que bem quiser!
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De Cátia Silva a 12.06.2014 às 15:27

Menos brilhantes??? Isto não é uma questão de brilhantismo... Implica o factor talento (o suficiente...) e muuuuuita cunha!!! Sou jornalista no desemprego.
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De Tété a 12.06.2014 às 15:34

Às vezes não basta reinventar e lutar, mas também é preciso ter sorte. O Ricardo teve a sorte de no dia em que saiu de um trabalho, haver três outros locais disponíveis e interessados em trabalhar consigo. Hoje, até pode haver interessados, mas já não há se calhar a mesma disponibilidade para contratar.
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De constança a 12.06.2014 às 16:31

Para mim e acredite para muitos o blog da sua mulher tem vindo a perder o interesse e digo mais, se continuar assim tem os dias contados... Perdeu toda a naturalidade deixou de ser expontâneo, tudo é comercial, textos que lá são publicados sobre produtos aparecem em muitos outros blogs, e a pipoca a falar como se realmente gostasse do produto. Sabe deixei de ler! Ok menos 1 para os números
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De stantans a 12.06.2014 às 18:43

"se continuar assim tem os dias contados", quando o Arrumadinho diz que o blogue tem cada vez mais visitas? lol
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De joana a 12.06.2014 às 16:46

Este post tem um tom arrogante, sobranceiro e convencido que me choca. Tal como o Ricardo nunca enfrentei efetivamente o desemprego mas tenho discernimento para perceber que por vezes não basta reinventarmos-nos e ter três empregadores ao nosso encalço e também uma questão de sorte e não só de mérito Aprenda a lição da humildade. Vai ver que não custa nada.
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De O Arrumadinho a 12.06.2014 às 16:49

Cara Joana. Se leu o texto, então, escapou-lhe a parte em que digo exactamente aquilo que me acusa de não dizer: a de que é preciso ter sorte. Está lá escrito. Só não lê se não quiser.
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De Ana a 13.06.2014 às 19:27

E também precisa de dinheiro, já agora. Dinheiro que não cai do céu.

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