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20
Jan14

Os jotas e os jotinhas

por O Arrumadinho

A propósito do referendo à coadopção (que eu acho uma aberração, um tiro no pé do PSD, um erro político e social gravíssimo, que só não será histórico porque eu acredito que não haverá referendo), muita gente tem caído em cima da JSD e, por arrasto, de tudo o que tem um jota associado à cor política. Basicamente, o mínimo que toda a gente chama às juventudes partidárias é de “tachistas” e oportunistas, putos que não têm nada dentro da cabeça e que vivem na ambição de conseguirem um qualquer poleiro na organização partidária.

 

Não concordo nada com esta visão limitada e distorcida do que são as juventudes partidárias, visão esta assente quase sempre em nada, baseada em meia dúzia de episódios que volta e meia vêm à tona nas notícias dos jornais. A verdade é que quase toda a gente fala, mas a maioria não conhece uma única pessoa de uma juventude partidária, e acaba por fazer um julgamento do todo não conhecendo sequer uma parte.

 

Antes de mais, acho importante dizer que nunca pertenci a qualquer juventude partidária, nunca fui militante de qualquer partido. Mas tive, no período da faculdade, sobretudo, imensos amigos ligados às juventudes partidárias, e conheço, hoje, alguns jotas ou seniores que foram jotas durante muitos anos e ainda hoje estão ligados à estrutura das juventudes partidárias. E quando digo que conheço jotas não especifico, porque conheço pessoas da JSD, da JS, mas sobretudo da JCP. E aquilo que conheci dos miúdos ligados às juventudes partidárias nada tem a ver com esta opinião generalizada de que são uns meninos dos papás à procura de tacho.

 

Logo aqui, esta ideia cai pela base. Ser um jota, não é ser do PSD ou do PS. Como escrevi, a maior parte dos jotas que conheci eram da Juventude Comunista Portuguesa. E o que posso dizer é que a maioria eram miúdos extremamente interessados com o que os rodeava, excelentes alunos, muito curiosos e participativos nos assuntos da actualidade, quase todos amantes de História, Ciência Política, Filosofia, miúdos que procuravamm entender o que os rodeava, procuram ler autores ou filósofos que abordaram a evolução da história da política e do pensamento humano. E encontrei isto em muitos jotas comunistas, socialistas e sociais-democratas.

Os jotas que conheci eram, em média, mais interessados e mais interessantes do que os outros miúdos da idade deles. Eram pessoas com interesses diferentes, por ventura mais sérias, sisudas e preocupadas, mas também por isso gente com quem se conseguia ter uma conversa adulta sobre as coisas da vida e do mundo, mesmo tendo eles algumas vezes a visão lírica própria dos 18 anos.

Como é óbvio, encontrei várias excepções. Conheci jotas que mais não eram do que jotinhas, putos que achavam “bueda cool” ser de um partido, ir a reuniões do partido, mas depois quando abriam a boca só diziam asneiras. Conheci jotinhas que só iam para o partido para conhecer gajas, conheci jotinhas que estavam no partido porque se sentiam importantes no processo de mobilização de colegas (isto, sobretudo, na JCP), mas, como escrevi, estes eram a minoria. Ou seja, uma jota não é diferente de um partido, de uma turma da faculdade ou de um grupo de amigos: há gente interessante e válida, e há gente estúpida.

 

Nos dias que correm, em que temos uma geração muito instruída mas também muito desligada de causas, as jotas parece-me fundamentais, uma excelente forma de congregar gente interessante e pôr toda a gente a pensar nos problemas do país. As jotas não têm, no entando, o peso político que deveriam ter, nem conseguem combater esta ideia nacional de que são um bando de putos inconsequentes à procura de tacho. As jotas colam-se demasiado a assuntos dos mais velhos, quando deviam pensar, sobretudo, nos temas que afectam os mais novos.

 

Também me parece que os partidos trabalham muito mal as suas juventudes partidárias. Usam os miúdos para as campanhas eleitorais, servem-se da mão-de-obra à borla (e o jeito que eles dão para distribuir folhetos e colar cartazes) mas depois não os ouvem em assuntos em que eles deveriam ser ouvidos.

O eleitorado ali entre os 18 e os 25 anos é bastante relevante, e deveria ter nas jotas um voz de defesa das suas causas e lutas. E não tem. E essa é a grande crítica que faço às juventudes partidárias.

 

Não acho nada que não devam existir, pelo contrário, não acho nada que sejam um bando de miúdos desinteressados, mas acho que deviam posicionar-se de forma diferente, deviam falar de coisas diferentes, deviam ter mais autonomia, mais força, deviam ser mais intervencionistas, e só assim conseguirão mostrar que podem e são úteis ao crescimento de uma sociedade mais justa para os mais jovens.

 

O problema não é haver jotas, o problema é haver pouca gente nas jotas, porque se mais houvesse, mais cabeças haveria a pensar, mais braços haveria para lutar, fosse por que jota fosse.

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publicado às 16:48


12 comentários

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De Joana a 20.01.2014 às 17:07

Como conheces maioritariamente "jotas" da JCP, é normal que aches que o "estereótipo" criticado provém apenas de julgamentos pela rama e de notícias de jornal. O PCP nunca ganha nada de relevante, logo, não é um partido à volta do qual se movam pessoas motivadas pelos tachos e pelo oportunismo. Esses estão principalmente concentrados na JS e na JSD. Embora durante o meu período da Faculdade, por exemplo, tenha conhecido alguns desses ligados à JCP e ao BE e pouco mérito lhes reconhecia, pois a sua argumentação baseava-se apenas nos chavões do costume ("não às propinas! Mais apoios sociais!") e quando tentavas provocar algum debate com factos, não sabiam o que responder.

Quanto aos da JS e da JSD, pode haver ali um ou outro que se mova "por amor à camisola" e que tenha algum mérito para ali estar, mas a maioria é uma cambada do pior, com um nível académico medíocre, mas que se soube mexer de forma a estar sempre com as costas cobertas. A título de exemplo, trabalhei em Bruxelas e conheci vários portugueses que trabalham no Parlamento Europeu, como assistentes de eurodeputados. Tudo jovens na casa dos 25-35 anos, a maioria licenciada em privadas/públicas com pouco crédito, com notas medianas, nos cursos da praxe (Direito, Economia, Relações Internacionais, Ciência Política, etc) que, "surpreendentemente", desde que terminaram os seus estudos ocuparam sempre cargos ligados à política (assessor de X, chefe da concelhia de Y, colaborador de Z... até que chegaram ao posto em Bruxelas). Sou conhecedora do mercado de trabalho em Portugal e no estrangeiro para essas áreas, pois uma delas é a minha também e garanto-te que se fosse por "mérito" nunca ocupariam aqui nenhum cargo de relevância. Eu e outras pessoas que conheço que em Portugal, no sector privado e no sector público em cargos que não dependem de nomeação política, mas sim de um concurso público isento e transparente, tivemos de penar bastante para conseguir chegar onde chegámos. Andar em boas Faculdades públicas, estudar para terminar o curso com uma boa média, falar várias línguas, ter experiências no estrangeiro, participar em actividades extra-curriculares, fazer mais do que apenas uma actividade ao mesmo tempo, etc... para nos permitir ter um bom CV que é reconhecido por qualquer pessoa da área. Daí conseguirmos claramente saber que um tipo daqueles, se tivesse que viver no mundo real, estava desempregado na certa, ou a ganhar o salário mínimo a trabalhar numa actividade qualquer sem ser ligada à sua área.

No entanto, como se souberam mover no meio desde tenra idade, povoam estes gabinetes dos políticos, são nomeados para "técnicos especialistas" a ganhar 3500€/mês aos 22 anos (basta pesquisar um pouco e há scans de diários da república que o provam) e, um dia, serão os secretários de Estado e os ministros do nosso país, já que cá, infelizmente, pertencer à classe política ainda é sinónimo de escória e de falta de valores.
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De S a 21.01.2014 às 00:34

Como a sobrinha da Rebelo Pinto, por ex.
Enfim
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De M a 20.01.2014 às 17:59

Caro Arrumadinho,
Eu faço, no papel, parte destes Jotinhas, apesar de não me rever em tudo em que a JSD acredita.
Acredita que infelizmente as descrições feitas correspondem em 85% dos casos à realidade. Uma grande parte destes jovens, e muitos que estão hoje em cargos políticos são grandes ignorantes, verdadeiros calhaus. Digo isto porque tive o "privilégio" de conhecer alguns destes.
Uns andavam há 6 e 7 anos a acabar cursos de Direitos em Faculdades privadas, outros eram incapazes de fundamentar opiniões, outros pertencem à JSD pelo social.
O Hugo Soares não conheço. Mas alguém que defende este referendo, não entende claramente o que são Direitos Humanos. Não é preciso ser licenciado em Direito para o saber, mas até o é.
Este alguém defende ainda que a educação e a saúde não devem ser gratuitas. Para diminuir desigualdades. Não deve saber o que é viver com €500 por mês.
Defende também que os membros do Governo deveriam ganhar mais, deveriam ter salários mais próximos do privado onde se ganha bem, e este facto contribui para que muitos não queiram seguir uma carreira política. Ok, e as reformas que as Exas. vão receber? E o altruísmo que deve ser inerente ao desempenho destes cargos? E...no privado ganhariam mais? Com os cursos de Direito de 3 anos que tiraram em 7? Certo...
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De A Pipoca Arrumadinha a 20.01.2014 às 18:26

Coisas da politica ainda bem que está de volta amigo já agora, hoje tenho mais uma entrevista no blog e das boas!
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De Kate Guimaraes a 20.01.2014 às 18:42

Ola Ricardo!

Espero que estejas melhor.

Em relacao a este assunto, devo dizer que os jotas que eu conheci acabaram por se juntar a politica porque nao conseguirem acabar o curso.

Ou entao, juntaram-se por paixão e acabaram por se deixar corromper um pouco pelo sistema que leva a que tenhas mais tarde que pagar os favores que te levaram a liderança.

Eu acho que a politica devia ser exercida por pessoas que ja prestaram provas do seu valor na sociedade. Pessoas que fazem da politica carreira tornam-se invariavelmente, muito dependentes do poder.

E conheci muitos jovens amigos, interessados, que discutem ideias, que participam em projectos por iniciativa propria e em que deposito seriamente muito mais esperancas para a lideranca do nosso pais do que os jovens das juventudes partidarias...

As melhoras,
Kate
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De Kate Guimarães a 20.01.2014 às 22:05

Peço desculpa pela falta de acentos mas escrevi de um teclado inglês...
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De Pronta e Vestida a 21.01.2014 às 09:47

Conheço "jotas" de grande grande valor, os tachos há em todo o lado.

www.prontaevestida.com
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De Pedro a 21.01.2014 às 10:57

No secundário, por causa das eleições para a Associação de Estudantes envolvi-me com as "Jotas". De fugir.

Depois conheço uns qts Jotas, um deles foi meu colega de Universidade e é agora Primeiro Ministro. De fugir.

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De Angela a 21.01.2014 às 16:56

Aquele individuo que andou anos e anos para acabar o curso superior, ou estarei a confudir?
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De Pedro a 23.01.2014 às 16:56

É o actual primeiro ministro e foi jotinha. Os anos que demorou para tirar não são relevantes para o assunto. :)
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De S. a 21.01.2014 às 17:00

Eu sou militante da JSD e participei de forma bastante activa há uns anos atrás nestas coisas das estruturas partidárias. A Comissão Política que integrei utilizou a estrutura para desenvolver uma série de actividades em diversas áreas, para debater temas, para pensar um bocadinho o concelho e as realidades que integra. Eu e o meu grupo acabámos mais tarde por afastar-nos. A equipa que nos sucedeu - e a que sucedeu àquela que nos sucedeu - é absolutamente inerte. Não há estrutura, não há ideias, não há debate, não há absolutamente nada. O cargo serve-lhes como isso mesmo, como um cargo que não é mais do que isso. Não há amor à camisola - há amor àquilo que pode vir depois disto e àquilo que talvez consigam mais tarde. O partido é um veículo que nem sequer tem a ver com ideais. "Entretanto calço uma luva aqui e engraxo uma bota ali e pode ser que a coisa cole".
Sou obrigada a reconhecer a veracidade da maior parte do que se vai dizendo sobre os "Jotinhas". A maior parte são inúteis que levam os tais sete anos a acabar Direito, meio "mancos", nas Reuniões das Associações Académicas que vão já instrumentalizando para a sua própria projecção.
São indivíduos vazios, que não sabem trabalhar, que, muitas vezes, nem nunca trabalharam. Querem ser alimentados pelo Estado e por dinheiros públicos, "que esses são muitos e chegam para todos!"
Mas também há gente boa, gente honesta e com vontade de fazer mais, com vontade de servir. É são esses que ainda me fazem acreditar na Política e no que ela verdadeiramente representa.
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De Jorge a 22.01.2014 às 17:31

Pois, não é bem assim... eu nunca estive envolvido nem com Jotas nem com políticos, mas pessoas muito próximas já estiveram, participaram em eleições para juntas e etc, e juraram para nunca mais.
Tu podes ter conhecido alguns idealistas que militam em partidos menos mainstream e isso prova que estão mesmo lá por acreditarem na causa. Muitos até têm uma visão romântica do combate político, acreditam em coisas que já não fazem sentido algum ou deram provas que não funcionam (e usam boinas e vestem-se de uma maneira alternativa).São interessados.

Agora a maioria dos que vão para as Jota são pessoas sem valor que usam a aparelhagem política como rampa de lançamento para cargos onde nunca sonhariam chegar se os critérios fossem baseados apenas no seu talento e capacidades.
Não há muita volta a dar e por mais que douremos a pílula as coisas são como são. Os partidos do arco do poder, que ciclicamente vão à "malga" refastelar-se com os proveitos do dinheiro de todos, são gente sem valor, sem talento, sem patriotismo e muitas vezes sem moral alguma.

Tens hoje e no passado recente casos clamorosos de políticos de profissão saídos das Jotas mais que suficientes para documentar a tese que de facto dali não se pode esperar nada. São pessoas que vivem de expedientes, de compadrios, de influências, alguns tão básicos que forjam até os próprios currículos académicos que não tiveram capacidade de completar. Se pensares bem vês o quão baixo se desceu e a absoluta falta de qualidade desta gente que mente nisto, mente naquilo, mente em tudo o que faz, o que diz, e em tudo onde se mete.

É este o nível que temos e em parte explica a decadência que a classe política atingiu neste país, arrastando o dito para uma condição humilhante ao ponto de termos pedido a outros para nos virem ajudar a fazer a contabilidade.. é ridículo e absolutamente degradante!

Em Portugal há gente capaz, gente muito inteligente com valor e com ideias. Nós também temos uma elite intelectual, só que esses não se misturam com os oportunistas nem chicos-espertos que dominam em absoluto a cúpula dos partidos políticos... mesmo dentro desses há muitos que levantam a voz e não se reveêm no modo como as coisas estão...

Abraço

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