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15
Mar14

Praga

por O Arrumadinho

Há muitos anos que planeava ir a Praga, uma das cidades que mais me encantavam pela importância histórica, pela beleza natural e arquitectónica, mas que foi sempre deixada para segunda opção por ser um daqueles destinos em que se vai em qualquer altura. Privilegiei cidades mais distantes, sítios onde sabia que seria mais difícil ir, porque Praga estava aqui a poucas horas e em quaisquer três ou quatro dias uma pessoa dá uma escapadinha até lá. Andei uns 10 anos a dizer isto, até que chegou finalmente o momento. 

 

A história da antiga Checoslováquia sempre me fascinou, pela importância política e geográfica que sempre tiveram na Europa. As constantes invasões nos períodos das grandes guerras, as conquistas nazis e comunistas, a revolta do povo, a vontade de se afirmarem como nação independente foram sempre assuntos sobre os quais gostei de ler. Nesta viagem tive oportunidade de ver os locais onde muitos desses grandes acontecimentos ocorreram, como a Praça Venceslau, por onde os tanques soviéticos entraram, em 1968, naquela que ficou conhecida pela Primavera de Praga.

 

Até para a história política de Portugal, a Primavera de Praga, uma revolta popular que pretendia amenizar o comunismo ortodoxo imposto pelos soviéticos e torná-lo numa coisa mais suave e humanizada, teve importância. Na altura, o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, que vivia exilado entre Paris, Praga, Bucareste e Moscovo, depois de ter fugido do forte de Peniche em 1960, foi colocado perante a necessidade de se pronunciar sobre a invasão soviética de Praga. Muitos comunistas portugueses estavam do lado dos checos, e viam com bons olhos a abertura do comunismo, a humanização do partido (sobretudo os que, como Cunhal, viviam exilados em Praga), e, por isso, puseram-se ao lado do povo checo, que só queria isso, um comunismo, mas um comunismo diferente do imposto pela União Soviética. Mas Álvaro Cunhal fez o contrário. Manifestou total apoio à invasão soviética, esteve contra a Primavera de Praga, e isso levou a que muitos militantes portugueses abandonassem o partido, revoltados com a posição de Cunhal, que vinculava o PCP e mostrava o caminho que ele queria impor no partido — a linha dura soviética. A partir desse momento, muitos outros partidos e movimentos de esquerda nasceram em Portugal, organizados por dissidentes do PCP, que saíram após a postura do partido comunista relativamente à Primavera de Praga.

 

Foi sabendo tudo isto que fiz a visita a Praga, orientada por uma guia espanhola muito capaz, que sabia tudo sobre a cidade, mas que tinha dois defeitos enormes: não se calava um segundo e perdia horas a falar sobre o funcionamento do metro, o que me consumia os nervos. 

O facto de ela não se calar levou-me a ter uma vontade súbita de a a pontapear quando chegámos à Praça Venceslau, local mais marcante da Primavera de Praga. Chegámos lá e ela lá continuava "bá, bá, bá e bá, bá, bá" a falar de tudo e mais alguma coisa, menos da Primavera de Praga. E eu cheio de vontade de lhe fazer perguntas. Mas, como não a queria interromper, fiquei à espera de um segundo de silêncio para tirar dúvidas. Mas não consegui. Ela falou, falou, falou e lá chegou à Primavera de Praga. Foi então que disse ao grupo: "Bom, foi também nesta Praça que os tanques soviéticos entraram, num episódio histórico que ficou conhecido como a Primavera de Praga". Muito bem. E continuou. "Mas estou a ver que isto para vocês não quer dizer nada, não é?. Aposto que nunca ouviram falar sequer da Primavera de Praga. Mas eu explico. E bá, bá, bá, bá", lá continuou ela.

 

Ou seja, passei por burrinho só porque aquela senhora não se calava um segundinho para as pessoas poderem absorver informação, ler umas coisas, ir ler as inscrições de uma estátua, tirar dúvidas, nada. 

 

Embora tenha adorado a cidade, acho que Praga perde muito pelo excesso de turismo. A Praça Central da cidade velha é um amontoado de gente do mundo inteiro a tirar fotos, os cafés em redor são quase todos demasiado kitch e padronizados, as ruelas românticas ali à volta são rios de estrangeiros, a ponte Carlos está quase sempre a abarrotar, e as zonas fora do centro histórico não são particularmente bonitas. Gostei imenso da margem menos turística da cidade, da zona de Kampa Park, onde jantámos na primeira noite, com vistas incríveis para o centro, com uma beira-rio agradável para passear e ruas encantadoras. 

 

A arquitectura é imponente, com todos os estilos (gótico, neogótico, romanico, barroco, renascentista, há de tudo), o que mostra bem a riqueza da história da cidade, que, ao contrário de Budapeste, por exemplo, teve a vantagem de ter sido poupada à destruição quase total da II Guerra Mundial (foi bombardeada, mas o centro histórico salvou-se).

 

Da cidade, adorei ainda todo o bairro judaico, e em especial o cemitério, verdadeiramente impressionante.

Historicamente, os judeus sempre foram perseguidos em Praga. Durante séculos, estiveram confinados a um único bairro, onde tinham as suas sinagogas, casas, lojas, tudo. Não podiam sair dali por nada. Quando morriam, eram enterrados no único cemitério, bastante pequeno. Ou seja, ao fim de umas boas dezenas de anos, o cemitério deixou de ter espaço para mais mortos. Então, começaram a cobrir as campas antigas com terra e a enterrar uns mortos por cima dos outros, fazendo o cemitério crescer em altura. As tumbas foram nascendo coladas umas às outras. Hoje, estima-se que haja perto de 12 mil pessoas enterradas naquele curto espaço. Aquilo, visto ali, no local, é incrível, mas pesado.

O Museu do Comunismo, mesmo no centro da rua com as lojas mais fancy, ao lado do McDonalds (mesmo, porta com porta), é uma desilusão: um amontoado de velharias, poucas explicações sobre as coisas que estamos a ver, uma funcionária trombuda, meia-dúzia de fatos, objectos, fotos, nada de especial.

 

Outra coisa boa desta primeira fase das férias foi a possibilidade de poder fazer umas corridas, já que, com a Maratona de Paris cada vez mais próxima, não me posso dar ao luxo de ficar uma semana sem treinar. O único problema foi que a guia vinha sempre buscar-nos ao hotel às 8h, ou seja, para conseguir correr tinha de sair do hotel por volta das 6h10/6h15, o que implicava acordar às 5h50 (4h50 em Portugal). Mas nem isso me desanimou. Consegui correr todos os dias, mesmo que a temperatura marcasse os cinco graus negativos (como aconteceu no primeiro dia).

 

 

Uma vista de uma das ruelas que passam por baixo da Ponte Carlos 

 

 

Ao fundo, novamente a Ponte Carlos, sempre cheia de turistas

 

 

Outra vez a Ponte Carlos, talvez o símbolo mais facilmente reconhecível de Praga
Encontrei muito menos referências do esperava a Kafka, um dos meus autores preferidos
Kafka chegou a viver nesta casinha, perto do castelo de Praga, uma das zonas mais bonitas da cidade
A Catedral de S. Vito, na zona do Castelo, que é visível de qualquer ponto de Praga
O incrível cemitério judaico, com as suas tumbas sobrepostas
O Museu do Comunismo desiludiu-me, embora goste sempre de ver estas coisas
Um dos cartazes mais divertidos no Museu do Comunismo
Foto tirada no primeiro dia em que fui correr por Praga de manhã, às 6h30 (5h30 em Portugal)

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publicado às 08:46


13 comentários

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De MS a 15.03.2014 às 11:23

Apesar de ter gostado de Praga quando aí estive, achei tal como tu, uma cidade demasiado virada para o turismo o que a meu ver faz perder algum encanto (esse foi um dos motivos porque gosto mais de Budapeste).
Excelentes fotos e obrigado por este bocadinho de história! :)
Abraço
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De Marisa Furtado a 15.03.2014 às 11:48

Fui a Praga há dois anos e foi a viagem mais bonita que fiz até hoje. Achei a cidade lindíssima e gostei do facto de se poder fazer tudo a pé (só recorríamos ao metro ao fim do dia para regressarmos ao hotel). A única coisa que detestei foi a comida. Muitos molhos, muita gordura, muitos condimentos. Porém, a comida de rua foi uma agradável surpresa, especialmente os doces :) como fui em Novembro não apanhei essa enchente de turistas de que falas e deu para viver a cidade como um local, com muita calma.
Fiquei com saudades de voltar ao ler o teu post...
Marisa
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De AR a 15.03.2014 às 14:14

Vou a Praga daqui a um mês, por isso obrigada pelas boas referências :) Parece valer a pena ir até o cemitério judaico (que inicialmente pensei que não fosse nada de especial).
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De ana sofia santos a 15.03.2014 às 15:24

pontapear alguém sobre porque esta a fazer para aquilo que é pago?
acho que não é querer fazer ninguém de burro digo eu.. as vezes vamos a aulas em que já sabemos uma coisa mas não queremos parecer sabichões e que o professor é um ignorante e respeitamos, digo eu
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De SaraRSS a 15.03.2014 às 17:13

Agora em português por favor...
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De ANA SÁ a 15.03.2014 às 17:18

Olha que ficaste muito bem nas fotos! :) E a cidade parece mesmo maravilhosa!
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De Pronta e Vestida a 15.03.2014 às 17:22

Muito giras as fotos!

www.prontaevestida.com
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De Anónimo a 15.03.2014 às 22:24

Arrumadinho,tu és muito bonito........a Pipoca é uma sortuda em tudo.
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De Sara V. a 15.03.2014 às 22:46

Não sei se o Ricardo já sabe, provavelmente sim, mas o facto do bairro judeu estar tão bem conservado e não ter sido alvo de bombardeamentos ou destruição na guerra (o que seria de esperar, certo?) deve-se ao facto de o Hitler, após a invasão e convencido de que iria eventualmente ganhar a guerra e exterminar os judeus, ter decidido que todo o bairro seria guardado e poupado para no futuro ser exemplo de uma raça inferior que tinha habitado na terra mas tinha sido dizimada =)
Gosto muito dessa história, como da do Hard Rock Café.
Ainda não tive oportunidade de visitar Praga, mas é uma cidade que anseio conhecer =)
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De Anónimo a 16.03.2014 às 09:22

Olá bom dia!!
Gostei muito de ler sobre Praga, obrigada!
Também gostei de ver o casal, estão muito bonitos! Desejo muito sorte para os dois!
S.
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De Andreia Faustino a 17.03.2014 às 09:59

Olá,

Também gostei muito de Praga mas porque tinha pouco tempo e já tinha ouvido que o museu comunista era um pouco fraco preferi apanhar um autocarro para Terezin e fiz uma visita ao campo de concentração.

Beijinhos

Andreia

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