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19
Mar14

Ser pai

por O Arrumadinho

O mais difícil de ser pai é o medo. O que medo que se tem de tudo, de que aquelas pequenas criaturas que dependem de nós tenham uma doença grave, que sejam atropeladas, raptadas, que se tornem em más pessoas, que sejam desinteressadas, que não queiram saber da escola, que sejam espancadas pelos colegas, que sejam os vândalos que batem nos outros, enfim, quase tudo coisas que, por mais empenhados que sejamos, não conseguimos controlar.

 

Não existem formas perfeitas de educar. Teorias há mil e uma, que dizem uma coisa e o contrário disso mesmo, mas nenhuma delas é infalível. Se fosse, seria universal, seria aplicada por todos os pais que querem ter bons filhos, que querem criar boas pessoas. O que não falta por aí são exemplos de irmãos que receberam uma educação em quase tudo igual, mas que um teve muito sucesso e o outro, pelo contrário, perdeu-se. Há factores incontroláveis que influenciam decisivamente a vida dos nossos filhos, por isso, por muito perfeito que seja o nosso trabalho enquanto pais, só nos resta desejar, também, que a sorte acompanhe os nossos miúdos.

 

Quando olho para o que sou enquanto pai encontro imensos defeitos. Há muitas coisas que eu sinto que deveria fazer e não faço, necessidades que sei os meus filhos têm e que eu não consigo satisfazer, seja por esta ou aquela razão – sendo que a principal é sempre a falta de tempo.

 

A falta de tempo é, hoje, a maior limitação para os pais que vivem numa grande cidade, em empregos sem horários, em que o trabalho raramente fica no escritório e acompanha-nos quase todos os dias para casa. E é nisto que me sinto impotente para agir, para conseguir dar a volta e ser um melhor pai. Por mais voltas que dê, não vejo forma de equilibrar as coisas, de poder estar às quatro e meia à porta da escola do meu filho para ainda poder ter tempo para brincar com ele antes do jantar, para fazer os trabalhos de casa ao lado dele. Da mesma forma que não consigo ir buscar o mais pequeno a horas decentes, para poder fazer tudo aquilo que um pai deve poder fazer com os seus filhos, tudo aquilo que um pai tem obrigação de fazer com os seus filhos, mas que a vida não lhe permite.

 

O tempo é, hoje, o mais inimigo de todos os pais. Sei que não falo só por mim, sei que muitos pais vivem isto todos os dias, pais, até, que são obrigados a mudar de país, de vida, em busca de melhores condições, para que possam proporcionar uma vida mais digna aos seus filhos. Felizmente, ainda não cheguei a esse ponto, mas tenho o máximo respeito por aqueles que partem, muitas vezes sozinhos, e que são julgados pelos que ficam, que acham mais importante salientar o “abandono” a que votam a família, do que o sofrimento que irão encontrar num país estrangeiro longe das pessoas mais importantes da vida.

 

Quando os meus filhos crescerem, sei que irão olhar para trás e tentar perceber que tipo de pai tiveram. Vão procurar referências, histórias, vivências inesquecíveis, que muitas vezes são coisas pequenas, e não grandes acontecimentos. Comigo, pelo menos, é assim. Da minha infância, recordo, sobretudo, momentos aparentemente insignificantes, mas todos eles muito felizes. As férias em Elvas com os meus primos, as nossas brincadeiras intermináveis até de madrugada, as temporadas a acampar com os meus avós e a minha irmã em Milfontes, a minha bicicleta ferrugenta com que fazia corridas à volta do meu prédio em Faro, os sacos de berlindes, as colecções de cromos, um pequeno homem-aranha com cabeça de borracha, tardes a ler livros do Lucky Luke, manhãs a ver os Thundercats ou o Dartacão, o meu primeiro computador, o Timex 2048, as futeboladas no corredor do prédio dos meus avós, as fisgas que o meu avô esculpia com paus, os papagaios de papel que construía com canas, plásticos e papel de jornal, as tardes a jogar ao 35 na rua. É de fragmentos que se constrói a minha memória de infância. Também guardo os episódios negros, histórias tristes, episódios muito complicados que vivi, e que espero que os meus filhos nunca venham a viver, por mais que eles me tenham obrigado a crescer à pressa. Mas acho que nenhum pai deseja a infelicidade do filho para ele aprenda lições de vida – elas chegarão, por isso, não é preciso forçá-las.

 

Hoje, Dia do Pai, quero reforçar esse meu desejo: o de fazer mais pelos meus filhos, para que eles sejam melhores pessoas. Sei que se o conseguir, no futuro, quando eles olharem para trás e procurarem os tais fragmentos de vida, encontrem, nestas imagens, o pai, eu. Então, sentirei que cumpri com a minha missão. Mas com um filho de 7 anos e outro de 8 meses sinto que o caminho ainda agora começou, e que a estrada só terminará no dia em que eu morrer. Ser pai, é isso, é ser pai sempre, do início até ao fim. Espero estar à altura.

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publicado às 12:08


31 comentários

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De Sandra a 19.03.2014 às 12:24

Se corresse menos maratonas se calhar, mas só se calhar, tinha mais tempo para estar com as crianças. Digo eu...
Só arranjamos tempo para o que queremos.
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De O Arrumadinho a 19.03.2014 às 18:02

Diz, e diz mal, cara Sandra.
Pode ler a resposta que dei no outro comentário.
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De Anónimo a 20.03.2014 às 11:44

Percebo o que diz, mas também percebo os comentários sobre a "falta de tempo".
É que é muito fácil dizer aos outros que dizem que não têm tempo de ler ou de fazer exercicio, porque têm trabalho, filhos e outros azaferes, que é tudo uma questão de querer e de organização, de prioridades, quando afinal depois também "reclama" da falta de tempo.
Afinal, há tempo para tudo ou não? Se calhar, vai-se a ver que não...

E já agora porquê só nas "grandes cidades" é que existe falta de tempo? Nas aldeias não se trabalha? Olha que eu trabalho e muito! E não consigo arranjar tempo para ler (pelo menos tanto como gostaria) e não consigo ter tempo para fazer exercicio. E lá está, apesar de usar esse tempo com os meus filhos (e marido), ainda assim sinto que não tenho para eles o tempo que gostaria e deveria ter.

Acho bem as corridas, as actividades todas, o ir de férias sem filhos (também vou), agora fico chateada e, confesso, até desiludida quando pessoas como o arrumadinho e a pipoca me intitulam (sim, serve-me a carapuça) de desorganizada e de não saber gerir prioridades por não conseguir arranjar tempo para coisas que adoro como por exemplo ler, ir ao ginásio...
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De Sara a 19.03.2014 às 15:23

Não me leve a mal, mas a falta de tempo que refere, no seu caso, pelo que vemos no blog é uma tontice.

Porque se mete em livros e corridas e tantas coisas, se quer passar mais tempo com os seus filhos? Atenção: nao condeno que o faça, mas depois não se queixe de falta de tempo. Quiçá, se tivesse só o trabalhinho no jornal chegava a casa (independentemente das horas) mas era so aquilo, nao tinha ainda que vir ao blog, ou ir correr, ou ir ler textos para compilar e fazer um livro. Se tem a vida agitada que tem, é porque também se mete em "apertos", não?

Se acha que não passa com os seus filhos tempo suficiente e que nao consegue satisfazer as suas necessidades, nao deveria ter ido de férias com a sua mulher e ter deixado os seus filhos em casa. Deveria antes ter pegado nos seus filhos e ir sozinho com eles e com a sua mulher para algum sitio.

Repito: não condeno nem julgo os pais que deixam os filhos com os avós para irem para aqui ou para ali, claro que merecem e o tempo a dois é fundamental. Mas depois não venham "chorar" porque é tudo por opção vossa.
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De O Arrumadinho a 19.03.2014 às 18:01

Cara Sara,

Não que tenha de dar justificações, mas, para que fique esclarecida:

1. Eu só corro quando os meus filhos estão a dormir (às 6 ou 7 da manhã, ou às 10 da noite), ou quando estão na escola (à hora de almoço). Fora disso, só faço provas, que duram, no máximo, duas horas.

2. Eu só escrevo livros, guiões e textos no blogue quando quando eles estão a dormir ou nas minhas horas de almoço (entre as 6h e as 8h, entre as 13h e as 15h ou a partir das 22h).

3. Quanto às férias, bom, estas foram as primeiras no último ano em que fui sozinho com a minha mulher. E foram cinco dias. Não acho que seja por isso que sinta que estou pouco tempo com os meus filhos.

Aquilo de que falo é de um sentimento generalizado de quem trabalha numa grande cidade, em que um emprego nos ocupa a quase totalidade do tempo útil - ou seja, das 9h às 20h. E isso não depende de mim, é a minha profissão. Com muitas outras passa-se o mesmo. Todos os meus "extras" são feitos nos tempos em que não posso dedicar à minha família. E ainda que não fossem, teria direito a eles, como qualquer pessoa.
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De Tété a 20.03.2014 às 09:34

Ricardo,

Eu até concordo com a sua resposta, embora me salte logo algo à vista: o facto de correr e escrever no blog enquanto os seus filhos dormem não significa que não pudesse aproveitar esse tempo para fazer outras coisas que certamente faz enquanto eles estão acordados e que essas sim lhe roubam tempo para estar com eles.
Não é uma crítica até porque cada um faz do seu tempo aquilo que quer e cada um tem as suas prioridades, e eu até acho que mesmo em adultos é bom que haja hobbies. É simplesmente um comentário.
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De Anónimo a 20.03.2014 às 15:17

Muda de emprego. A sério, tenta arranjar o teu "9 to 5" e marimba-te para o resto. Eu tenho 26 anos, há 1 ano atrás estava a trabalhar na minha área, numa instituição reputada, com uma carreira promissora à frente, a ganhar bem, mas a trabalhar das 9h às 21h todos os dias (quando não era até às 23h, meia-noite, noitadas, directas, fins-de-semana, férias...). Sabia que não era vida para mim porque, apesar de ainda não ter filhos, quero vir a tê-los um dia e gosto (e preciso!) demasiado da minha vida pessoal para contrapor ao trabalho de todos os dias. Despedi-me, andei 1 ano em que passei por 3 empregos temporários (todos na minha área, mas dois deles fora de Portugal) e agora finalmente regressei para um emprego porreiríssimo, ainda na minha área, a ganhar menos umas centenas de euros por mês que o que tinha há 1 ano atrás, mas com uma melhoria imensa na qualidade de vida que tenho (e podendo fazer um horário das 9h às 18h todos os dias, sem qualquer problema). Assim sinto que consigo viver a vida que ambiciono e que, tendo filhos e tendo que suportar na mesma o peso que o trabalho tem nos dias de hoje, conseguirei melhor construir uma vida em que possa equilibrar bem todas as suas vertentes.
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De s a 21.03.2014 às 19:10

Sabe arrumadinho, só lê deste tipo de comentários porque estas são as mesmas pessoas que permitem este tipo de sistema parvo em Portugal, onde acham que na nossa vida privada não podemos ser mais nós próprios e criticam qualquer hobbies que se tenha. Estive imenso tempo na Holanda e aprendi com eles que o trabalho tem de ficar no trabalho e ser respeitado por isso. Infelizmente, em Portugal, exige esforço dos dois lados, mas muitas vezes os pais são os criticados por quererem ter vida nas horas que são legalmente designadas para a sua vida privada. Tem todo o direito a sair do Jornal a horas, depois do horário que seja que tem no seu contrato e seguir com a sua vida privada. 8 horas de trabalho, 8 horas para a vida privada e 8 para dormir, é um direito de vida que ninguém deve criticar a quem desabafa que não tem e deseja ter. Ser um bom pai é um desejo que devia ser simplesmente respeitado, mas, em países onde depois "ouve" este tipo de criticas parvas de gente assim, só mostra que Portugal ainda tem muito que crescer no seu respeito pela vida privada de todos. É um pai saudável e expressando este tipo de preocupação só mostra que é um bom pai. Força com a sua organização do horário e se precisar dê ali um salto à Holanda e peça umas dicas, eles são exemplares no que toca a horinhas para a sua vida incluindo os filhos, 1500 hobbies para eles, os filhos e os vizinhos), gostei muito de aprender isso com eles.... pode sempre fazer uma reportagem acerca disso :p, como nós por cá somos mesmo muito críticos e pouco suportados pelo respeito ao horário privado.
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De Bruno Jacinto a 19.03.2014 às 16:00

E o que fazer quando eles começarem a tomar opções contrárias ao que imaginámos?

Se se quiserem tornar adeptos de um clube diferente?

Um partido diferente?

E até uma religião diferente (neste caso de ambos, visto apenas a Pipoca ser religiosa)?
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De Dylan a 19.03.2014 às 16:15

Não sabia que era pai.
Revi-me nestas palavras: "[os filhos] vão procurar referências, histórias, vivências inesquecíveis, que muitas vezes são coisas pequenas, e não grandes acontecimentos. "
Belo texto!
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De Pronta e Vestida a 19.03.2014 às 16:38

Bom, acho que esse medo é inerente a (quase) todos os pais. ALiás, eu já o tenho e ainda nem sou mãe :) De certeza que estás no bom caminho.

www.prontaevestida.com
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De MS a 19.03.2014 às 17:49

Excelente! Não tenho dúvidas que estarás à altura.
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De A Pipoca Arrumadinha a 19.03.2014 às 19:30

O exercício faz bem!
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De Ana a 22.03.2014 às 18:34

E o que tem isso a ver com este post?!
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De A Pipoca Arrumadinha a 24.03.2014 às 19:03

Amiga tem razão, mas já respondi oportunamente, mais à frente!
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De Algulheiro dos Sábios a 20.03.2014 às 00:28

Boa noite,

Parabéns pelo post!
Poderia ser o primeiro de uma série de pequenos contos...
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De Anónimo a 20.03.2014 às 09:25

Texto muito bom e que reflete o sentimento de muitos pais (e mães).
Não que precise de defesa pois sabe fazê-lo muito bem sozinho, gostava de referir que tal como o Ricardo, de tempos a tempos realizo umas provas (muito poucas) e tento treinar quando possível. Como sinto que o tempo com os meus filhos é menor do que o que desejo, os treinos realizam-se das 6h às 7h da manhã. Abdico sim, não do tempo com os meus filhos mas das minhas horas de sono.

P.S. - Being a Dad is a work in progress till the last day of my life (so much yet to learn).
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De homem sem blogue a 20.03.2014 às 10:50

Sou da opinião que todos os pais falham. Por mais que se esforcem para que isso não aconteça, um pai (e mãe) vai sempre falhar num ou noutro momento. Se isso faz dele um mau pai? Claro que não.

Um pai é um somatório de tudo. Como disse no meu blogue, em pequeno, havia dias em que só sentia o meu pai quando me beijava antes de ir trabalhar e quando me beijava assim que chegava a casa, sendo que eu dormia em ambas as situações.

Se isso fez dele um mau pai? Nada disso. Porque nunca tentou comprar esta ausência com dinheiro ou brinquedos. A compensação era com amor em todos os tempos que tinha livres.

Por isso, é o melhor pai do mundo. E o seu comportamento ensinou-me a ter aquilo que considero ser a melhor perspectiva da vida.

Se tens a tua vida "planeada" de modo a que os teus filhos tenham o melhor de ti, isso basta para que sejas um bom pai.

homem sem blogue
homemsemblogue.blogspot.pt

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